Isso a Globo não mostra: as intrincadas relações do bolsonarismo com o Banco Master
Toda a alta cúpula do bolsonarismo tem relações muito próximas com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master
A cobertura do escândalo do Banco Master ganhou, na última sexta-feira (6), um episódio que revela muito sobre a forma como parte da grande mídia brasileira constrói narrativas políticas. Durante um programa da GloboNews, foi exibido um gráfico que pode ser descrito, sem exagero, como o “PowerPoint do BolsoMaster”.
A cena remete imediatamente a um episódio que marcou a política brasileira recente. Em 16 de setembro de 2016, o então procurador da República Deltan Dallagnol apresentou à imprensa um famoso PowerPoint no qual colocava o então ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no centro de um suposto esquema de corrupção investigado pela Lava Jato. O diagrama circular, cheio de setas e conexões vagas, tornou-se símbolo de uma acusação que misturava narrativa política e espetáculo midiático.
Quase dez anos depois, o método parece ter sido reciclado — agora em estúdio televisivo.
No gráfico apresentado pela GloboNews, o centro da imagem era ocupado por Daniel Vorcaro, ex-banqueiro e hoje preso no contexto das investigações sobre o Banco Master. A partir dele, linhas conectavam diversos personagens, formando uma rede visual que sugeria relações políticas e institucionais.
Depois de Vorcaro, surgiam imagens de Lula; do senador Ciro Nogueira; do deputado Hugo Motta; da empresária norte-americana Ivanka Trump; do dirigente partidário Antonio Rueda; do príncipe saudita Mohammed bin Salman; do senador Davi Alcolumbre; do ex-governador João Doria; e, por fim, do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes.
O problema não está apenas na lista heterogênea de personagens, mas no que o PowerPoint não explica. A imagem sugere conexões, mas não esclarece qual seria o papel de cada um ali representado. Relações institucionais, encontros ocasionais e investigações em curso aparecem no mesmo plano visual, produzindo no público a sensação de uma teia única de interesses.
Um exemplo emblemático é o caso do próprio presidente Lula. O encontro entre Lula e Vorcaro ocorreu apenas uma vez, em dezembro de 2024, no Palácio do Planalto. A reunião foi solicitada pelo próprio banqueiro, que buscava convencer o governo a apoiar a venda do Banco Master ao Banco de Brasília. Naquele momento, Vorcaro sequer era alvo de investigação. O tema acabou sendo tratado de forma institucional e encaminhado ao Banco Central.
Mais do que isso: o governo federal não interferiu na análise da operação. O Banco Central, já sob a presidência de Gabriel Galípolo, adotou uma postura ainda mais rigorosa do que a gestão anterior de Roberto Campos Neto. A autoridade monetária não autorizou a operação e posteriormente decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em novembro de 2025.
O fato de Vorcaro ter escrito em mensagens privadas que a reunião com Lula “teria sido muito boa” não constitui prova de qualquer favorecimento. Na prática, o presidente não se envolveu no assunto e deixou as decisões nas mãos da diretoria do Banco Central.
ISSO A GLOGO NÃO MOSTRA
Curiosamente, o chamado “PowerPoint do BolsoMaster” também deixa de fora elementos relevantes da investigação que apontam conexões muito mais concretas com figuras do campo bolsonarista.
As apurações da Polícia Federal nas fases da Operação Compliance Zero indicam que o operador financeiro do esquema, Fabiano Zettel — cunhado de Vorcaro — foi o maior doador individual das campanhas de Jair Bolsonaro e de Tarcísio de Freitas em 2022, destinando cerca de R$ 5 milhões aos candidatos. Zettel acabou preso pela Polícia Federal em março de 2026.
O próprio senador Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro, apresentou durante a tramitação da PEC da autonomia do Banco Central uma emenda que, segundo investigações, ampliaria a capacidade de captação de recursos do Banco Master. Mensagens atribuídas a Vorcaro indicam comemoração pela proposta.
Outro elo relevante envolve o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, que sancionou lei permitindo ao Banco de Brasília adquirir o Banco Master em uma operação estimada em cerca de R$ 2 bilhões. O negócio acabou barrado pelo Banco Central.
Também chama atenção o caso do governo do Rio de Janeiro. A gestão de Cláudio Castro autorizou aportes bilionários do Rioprevidência — fundo de aposentadoria dos servidores — em ativos do Banco Master, mesmo diante de alertas de risco emitidos pelo Tribunal de Contas do Estado.
Há ainda episódios simbólicos, como o uso de um jatinho vinculado a empresas de Vorcaro pelo deputado Nikolas Ferreira durante a caravana “Juventude pelo Brasil” no segundo turno das eleições de 2022.
E existe um detalhe adicional pouco explorado na cobertura televisiva: a administradora Letícia Caetano dos Reis aparece como responsável pela empresa Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia. Ela é irmã de Alexandre Caetano dos Reis, que figura como sócio de Antonio Carlos Camilo Antunes — conhecido como “Careca do INSS” — investigado por fraudes em aposentadorias. A empresa do senador Flávio Bolsonaro tem sede em uma mansão adquirida em 2021 com financiamento liberado pelo Banco de Brasília.
Nada disso apareceu no PowerPoint exibido na GloboNews.
O resultado é um quadro curioso: um diagrama televisivo que sugere conexões difusas envolvendo diversas figuras públicas, mas que omite elementos investigativos que poderiam esclarecer a origem política e financeira do escândalo.
No fim das contas, o “PowerPoint do BolsoMaster” parece repetir um velho método: substituir explicações detalhadas por diagramas sugestivos, capazes de criar impacto imediato, mas pouco comprometidos com a complexidade real dos fatos. Em vez de esclarecer o público, a imagem acaba funcionando mais como narrativa visual — uma técnica conhecida desde os tempos da Lava Jato.
A diferença é que, agora, o PowerPoint não vem do Ministério Público.
Vem da televisão.
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