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Guerra moral/guerra híbrida, direitos sociais e trabalhistas e projeto econômico: as máscaras e os cenários

Guerra moral/guerra híbrida, direitos sociais e trabalhistas e projeto econômico: as máscaras e os cenários

  • quinta-feira, 2 de maio de 2019

Por Maria Sueli Rodrigues de Sousa, Professora da UFPI Vivemos um tempo múltiplo ou de pluri acontecimentos que parece uma grande salada em que nada se relaciona com nada. E pode até ser mesmo só caos, mas não conseguiremos tornar nossa ação estratégica se não estabelecermos elos entre o que está ocorrendo, mesmo sob o risco de sermos arbitrários. Com esse entendimento, corro o risco da arbitrariedade na tentativa de produzir sentido para repensar nossas ações. Oriento a minha preocupação tentando responder à questão: quais as conexões que há entre guerra moral ou guerra híbrida (ESCOBAR, 2018), ataque aos direitos sociais e trabalhistas e política econômica? E como indicação de resposta a perspectiva de que as três dimensões se organizam em forma de rede (LATOUR, 1994), em que nós atuamos estabelecendo suas ligações de modo consciente ou não. A argumentação está organizada a partir da orientação de Herbert de Souza (1984) ao indicar como fazer análise de conjuntura e com a discussão de rede de Bruno Latour (1994), no seguinte itinerário analítico: os fatos/acontecimentos e suas conexões formando cenários de ataques e de resistências, atrizes e atores da resistência e suas fragilidades e potências e a conexão entre a conjuntura e a estrutura do projeto modernidade/colonialidade. Os fatos que emergem no cenário que minha vista alcança ao final do ano de 2018 estão marcados por: discursos e atos pulverizados de negação à identidade sexual, de gênero e étnico-racial, discursos e atos de resistência na afirmação da liberdade de ser numa sociedade que se funda nas garantias dos direitos individuais, discursos de negação e de afirmação de direitos e discursos que atribuem a proteção de fronteiras do país a qualidade de barreiras. A negação de identidades é ataque ao direito à vida e figura como grande retrocesso em que ao invés de lutas libertárias ou por direitos, luta-se pelo direito de ficar vivo e, de certo modo, secundariza a luta por direitos, por liberdade e pela proteção à soberania, o que configura o primeiro cenário o da guerra moral ou guerra híbrida, em que se luta para continuar vivo como mulher, pessoa negra e indígena e população LGBTI, com discursos marcados pela ideia de que quem determina tudo é a maioria e a minoria que permaneça como minoria sem direitos, nem mesmo o direito à vida. Outro cenário que se configura é o da luta por direitos trabalhistas com duas centralidades: a luta contra a reforma trabalhista que retirou as proteções que o direito trabalhista consolidou como necessário para dar condições mínimas para equidade à parte que se encontra inferiorizada na relação de trabalho. A outra centralidade é a luta contra a reforma da previdência alegada sob a justificativa de desequilíbrio entre o que arrecada e o que paga, mas que não se sustentou perante à CPI da previdência que identificou o problema dos grandes devedores que não são cobrados e ausência de garantia do Estado na sua participação em forma de política pública de seguridade social. Os sindicatos que tiveram a sua atuação institucionalizada mais evidenciada, passam a fazer discurso de que é preciso colocar nas ruas a luta para evitar o adensamento da reforma trabalhista e ampliar os enfrentamentos contra a reforma da previdência. Um terceiro cenário é o das relações internacionais, com pouca visibilidade. O Brasil na última década assumiu protagonismo nas relações internacionais na formação e/ou fortalecimento de agrupamentos com países assemelhados seja na situação socioeconômico, seja no perfil político com destaque para dois agrupamentos: Mercosul e BRICS. O fortalecimento do Mercosul torna mais empoderado países historicamente inferiorizados nas relações internacionais com a permanente renovação dos vínculos coloniais, o que afeta interesses que se beneficiam com a herança colonial, o que colocou em mira países que tiveram governos mais aproximados de demandas populares, dentre estes o Brasil, sendo a forma privilegiada para enfrentar a ameaça de empoderamento a atuação das instituições em forma de combate à corrupção numa atuação seletiva com destaque para lideranças como Lula, Cristina Kircher e Raphael Correa. Já os BRICS grupo político formado pelos países Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, que se configuravam como mercado emergente, e se juntam para ampliar seu crescente poder econômico e sua influência geopolítica, com isso passando a almejar tornar-se símbolo da mudança no poder econômico global, diferenciando-se e distanciando-se do G7, formado por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido. O enfrentamento ao poder dos BRICS que vai se configurando é feito pelo ataque às soberanias mais frágeis com instituições menos consolidadas. No caso o Brasil e a África do Sul, adotando como estratégia a mesma para o enfraquecimento do Mercosul: o combate à corrupção. E o caso brasileiro com o adendo da guerra híbrida ou guerra que encontrou terreno fértil nas estruturas conservadoras do Brasil. O quarto cenário, e o menos visível, é o pré-sal! A reserva de petróleo se encontra no Brasil nas regiões sul e sudeste numa área de aproximadamente 800 km, com estimativa de até 100 bilhões de barris e teve sua existência anunciada em 2010. Desde então os discursos sobre o pré-sal são raros. O pouco que foi evidenciado foi para afirmar que não era estratégico por custar muito caro a sua exploração. Depois quase sempre só silêncio. O fato é que o quinto leilão já aconteceu e quase nada é divulgado. O último leilão aconteceu às vésperas das eleições e o resultado foi 90% adquirido por empresas estrangeiras e mais uma vez a Petrobrás perdeu e a aquisição foi por valores irrisórios com uma política de aquisição do petróleo refinado a preço de dólares. O resultado final é que o único cenário muito exposto é o da guerra moral. Como se os demais não existissem, especialmente, o da política internacional e o pré-sal, o que implica numa fragilidade para quem está no campo atacado que reduz sua força. Como o cenário mais exposto é o da guerra moral, os atores e atrizes que mais aparecem são conservadores versus minorias raciais, lgbti’s e de gênero pelos discursos de ideologia de gênero, de escola sem partido, ameaça a demarcação em curso de terras indígenas e discurso moral de capitalismo versus socialismo/comunismo. Mas vale considerar que há outros atores e atrizes na cena: a classe trabalhadora com seus direitos atacados e/ou ameaçados, capitalistas internacionais e grande empoderamento do capital financeiro e líderes mundiais e brasileiro. Esse conjunto de atores e atrizes resultam numa correlação de forças com pouco empoderamento das minorias identitárias, da classe trabalhadora e da soberania brasileira e forte empoderamento do capital internacional, de empresas estrangeiras, das soberanias imperialistas com a colaboração do governo brasileiro e daqueles que se consideram a elite do país. Essa correlação de forças de pouco empoderamento de quem resiste e forte empoderamento de quem ataca minorias, classe e soberania nacional fortalece as estruturas de colonialidade que se encontram em permanente reconfiguração desde o fim da colonização declarada. Permanecemos como imaginário colonizado com a utopia de nos tornarmos o colonizador, sem nem mesmo refletir sobre a importância de ter um imaginário que nos liberte daquilo que o colonizador construiu como pensamento brasileiro. O que demanda que o enfrentamento há que ser contra o projeto de europeização do mundo para criar um sentimento de nação pela tematização e luta contra a primeira subalternização engendrada para viabilizar o projeto colonial e que serviu de matriz para todas as outras subalternizações, a racialização do mundo que naturalizou a inferiorização e tornou-a estrutura de pensamento e das subjetividades. A racialização do mundo torna todos os países não europeus na condição de inferiorizados, galgando outro lugar apenas os que se configuraram como extensão da Europa, EUA e Canadá que servem como isca para a América latina e África como se fosse o exemplo: “se eles conseguiram, nós também vamos conseguir”. E continuamos nesse itinerário alimentando a utopia de nos tornamos Europa. É preciso romper com a mesma para sonharmos com a emancipação destes elos que nos escravizam há mais de 500 anos.  
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