Política

Guedes tem seu Dia de Pazuello: um manda, o outro obedece

Guedes parece não se importar, contanto que continue sendo chamado de ministro

  • sábado, 23 de outubro de 2021

Foto: Gazeta do PovoPresidente Jair Bolsonaro e ministro da Economia, Paulo Guedes, dizem que reformas são prioridade

Por Leonardo Sakamoto, jornalista, no facebook

"Alguém aqui é contra dar R$ 400 aos mais pobres?" Paulo Guedes usou a pergunta um rosário de vezes, nesta sexta (22), durante coletiva à imprensa ao lado do presidente Jair Bolsonaro. Queria inocular um motivo incontestável para ter atropelado de forma oportunista o teto de gastos públicos - regra que ele mesmo considerava sagrada até ver seu emprego em risco.

O histórico do ministro, contudo, leva a crer que ele é mais sintonizado com o que pensa o deputado Justo Veríssimo, personagem do imortal Chico Anísio, ou seja, que o pobre se exploda - depois, é claro, de depositar seu voto na urna em outubro do ano que vem. Mas o nível de hipocrisia foi muito baixo mesmo para os padrões atuais. Pois o governo Bolsonaro foi o responsável por turbinar a fome no ápice da segunda onda da covid-19, sem a mesma preocupação com os pobres.

Após ter reduzido o auxílio emergencial de R$ 600 para R$ 300, o que contribuiu para produzir 19,1 milhões de famintos, Guedes e Bolsonaro interromperam-no em 31 de dezembro, vindo a retomá-lo apenas no início de abril. A justificativa? Responsabilidade fiscal.

Ou seja, no período mais mortal da pandemia, quando muitas famílias tiveram que se refugiar em casa para não morrer, o governo que, agora, arrota amor aos pobres, não garantiu subsídios para que permanecessem sãos, salvos, abrigados (Bolsonaro vetou a proibição de despejos) e alimentados.

Deputados do centrão, no mês de abril deste ano, já recomendavam ao governo que retomasse o auxílio emergencial ou aumentasse o Bolsa Família carga máxima em 2022 para garantir votos. O presidente soltou vários balões de ensaios nesse sentido, mas sempre esbarrava na equipe de Guedes. Que, diga-se de passagem, nunca se preocupou se Bolsonaro espancava os direitos fundamentais, contando que não gastasse muito para isso.

Ao invés de salvar vidas e evitar a fome ao longo deste ano, o governo federal guardou seu foco para os dois últimos meses de 2021 e o ano eleitoral. O Auxílio Brasil, que vai substituir o Bolsa Família, pagará R$ 400 - mas só até o final do ano que vem. Ou seja, não é um programa social, mas um vale-reeleição.

Como já disse aqui mais de uma vez, ministros de Bolsonaro demonstram mais amor pelo cargo do que por suas convicções técnicas. Até porque sabem que essa é a grande chance de suas vidas, uma vez que não teriam uma em um governo democrático e racional. Fazem de tudo para continuar sentindo aquele quentinho de poder, com carro oficial, o café sempre fresco e aspones abrindo suas portas. É um comportamento típico de homenzinhos, que tentam, desesperadoramente, lustrar diminutas biografias.

A entrevista à imprensa desta sexta foi um teatro criado para passar a ideia de que Guedes continua forte, apesar da clara capitulação à estratégia e necessidades do centrão. Cálculos apontam que essa mexida toda vai gerar entre R$ 83 e 100 bilhões, muito mais do que o Auxílio Brasil precisaria. Podemos estar vendo a farra da emenda parlamentar.

O que é uma contradição em si, uma vez que ministro forte não precisa que um presidente diga que ele é forte. Como diriam os filósofos Vinícius de Moraes e Baden Powell, o homem que diz sou, não é.

Na verdade, foi uma cena de humilhação pública. Guedes aproveitou o momento para mandar torpedos contra a ala política do governo, o Congresso e a imprensa. Sentiu, como também diria o grande Tino Marcos.

Isso lembra a, hoje, icônica cena de submissão pública à qual o general Eduardo Pazuello, então ministro da Saúde, se colocou em 22 de outubro do ano passado. Após anunciar a compra de 46 milhões de doses da CoronaVac e ter sido desautorizado publicamente por Bolsonaro, Pazuello recebeu uma visita do presidente e gravou um vídeo ao seu lado para afastar boatos de que seria demitido ou se demitiria.

Ao lado de Jair Bolsonaro, Guedes teve hoje seu Dia de Pazuello: "um manda, o outro obedece". Guedes parece não se importar, contanto que continue sendo chamado de ministro. Nem o pessoal do autoengano, que ainda vive a fantasia de que Guedes pode controlar Bolsonaro.

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