EUA querem os minerais do Brasil — qual será a resposta do governo Lula?
Brasil prepara política para minerais críticos e busca protagonismo industrial diante da cobiça dos EUA
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está finalizando uma nova política nacional voltada aos chamados minerais críticos, com o objetivo de fortalecer a soberania estratégica do país e impulsionar sua indústria. Batizada de Mineração para Energia Limpa (MEL), a iniciativa é coordenada pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e mira um segmento fundamental para setores como energia renovável, mobilidade elétrica, defesa e tecnologia de ponta.
A proposta surge em um momento de tensão comercial com os Estados Unidos, cujo governo, liderado por Donald Trump, manifesta crescente interesse no acesso às reservas minerais brasileiras. A pressão norte-americana coincide com o anúncio da imposição de sobretaxas de até 50% sobre produtos brasileiros a partir de 1º de agosto, o que acendeu o alerta sobre a possibilidade de os recursos minerais entrarem como moeda de troca nas negociações bilaterais.
Internamente, o Brasil tenta transformar seu potencial geológico em vantagem econômica e geopolítica. A nova política prevê medidas como o estímulo ao mapeamento geológico, facilitação de financiamentos e incentivo à participação de pequenas empresas no setor. Entre as ações em estudo está a autorização para emissão de debêntures incentivadas — títulos com benefícios fiscais — voltadas à produção e ao beneficiamento desses minerais.
Lítio, cobre, grafita, silício, nióbio, vanádio e terras-raras são os principais alvos da estratégia. Embora detenha reservas significativas, o Brasil tem participação modesta na produção global desses insumos. Segundo o Guia para o Investidor Estrangeiro em Minerais Críticos 2025, elaborado pelo próprio MME, o país possui 26,4% das reservas de grafita do mundo, mas apenas 4,56% da produção; no caso das terras-raras, são 19% das reservas e míseros 0,02% da produção global.
Essa discrepância entre potencial e desempenho levou o engenheiro de minas Jorge Boeira, analista da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), a reforçar a necessidade de uma estratégia mais ambiciosa. “Não se trata apenas de vender minério bruto, mas de negociar inserção qualificada em setores de ponta da economia global”, afirmou. Para ele, os minerais devem ser tratados como ativos estratégicos, capazes de atrair investimentos, transferência de tecnologia e manufatura avançada no país.
Enquanto Brasília articula essa nova política, Washington movimenta suas peças. Na quarta-feira (24), o encarregado de negócios da Embaixada dos EUA no Brasil, Gabriel Escobar, procurou representantes do setor mineral para expressar o interesse direto do governo americano nas reservas brasileiras. A abordagem ocorre em paralelo ao mal-estar diplomático gerado pelas tarifas e por críticas reiteradas do presidente Trump à atuação do Judiciário brasileiro, especialmente no que se refere ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
A sinalização da Casa Branca é clara: a resolução da guerra tarifária pode vir acompanhada de pedidos de concessão em temas sensíveis como a exploração mineral. O governo Lula, contudo, mantém sua posição: os temas comerciais não devem ser misturados com o debate sobre soberania dos recursos naturais.
Nesse cenário, o programa MEL busca consolidar um modelo em que o Brasil não apenas extraia, mas também processe e industrialize seus minerais críticos, rompendo com o ciclo histórico de exportação de matérias-primas de baixo valor agregado. Como o subsolo é propriedade da União e sua exploração depende de concessões federais, o país detém uma ferramenta decisiva para estabelecer as regras do jogo.
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