Política

"De joelhos para Trump: o servilismo vergonhoso de Ibaneis Rocha"

Ibaneis Rocha, governador do Distrito Federal, manda carta para Trump num gesto que transborda bajulação e oportunismo político


Reprodução "De joelhos para Trump: o servilismo vergonhoso de Ibaneis Rocha"
Ibaneis Rocha manda carta para Donald Trump

Em um gesto que transborda bajulação e oportunismo político, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, divulgou uma carta endereçada a Donald Trump. O estopim foi um discurso do ex-presidente americano, no qual, ao decretar estado de emergência de segurança pública em Washington D.C., mencionou Brasília e fez comparações distorcidas sobre taxas de homicídios entre a capital brasileira e metrópoles dos Estados Unidos e de outros países.

Em vez de aproveitar a ocasião para defender a imagem do Brasil com firmeza ou contestar as falácias do republicano, Ibaneis preferiu transformar o episódio em palanque pessoal. Ao longo do texto, fez propaganda da própria política de segurança pública, não comparando-a a outros estados brasileiros — o que teria lógica — mas usando cada linha como arma para atacar o governo federal. O resultado foi um espetáculo de “vira-latismo” explícito: o governador pareceu mais preocupado em agradar Trump e marcar diferenças com Lula do que em defender os interesses nacionais.

A carta é recheada de insinuações que jogam a responsabilidade pela suposta “falta de diálogo” entre Brasil e EUA no colo do governo brasileiro. Ibaneis, ao mencionar que a lacuna de conversas bilaterais “possivelmente” decorre da postura do país, omite por completo o caráter hostil da política externa trumpista. Mais grave ainda: ignora as recentes medidas econômicas impostas por Trump ao Brasil, incluindo a taxação punitiva que ameaça empregos, encarece produtos e prejudica não só brasileiros, mas também consumidores americanos. Nem uma linha de cobrança ou protesto sobre isso — apenas silêncio cúmplice.

Quando se autodeclara líder de um governo “de centro-direita”, Ibaneis tenta vender a farsa de que sua gestão é “livre de vieses ideológicos”, ao mesmo tempo em que passa parágrafos inteiros acusando o governo federal de agir com “viés ideológico”. A contradição salta aos olhos. Sua seletividade também: Trump já admitiu, sem pudor, que seu endurecimento com o Brasil tem menos a ver com economia e mais com política — em especial, com a pressão para livrar Jair Bolsonaro de processos e permitir que o ex-presidente dispute as eleições de 2026. Sobre isso, Ibaneis não disse uma única palavra.

Perto do fim, o governador ainda se alonga em uma defesa vaga do “diálogo” e das “relações diplomáticas” com os EUA, como se essas relações não estivessem contaminadas por interesses ideológicos da extrema direita internacional. Não menciona que Trump, no tabuleiro geopolítico, tenta recolocar os Estados Unidos no papel de dono do quintal latino-americano, justamente no momento em que o Sul Global busca se libertar dessa tutela. Ibaneis parece alheio a esse cenário — ou pior, conscientemente omisso.

O episódio expõe duas figuras em decadência: de um lado, um Donald Trump cada vez mais isolado, usando mentiras e manipulação para agradar sua base ultradireitista; de outro, um Ibaneis Rocha que abdica de postura altiva e liderança para se portar como um lambe-botas de político estrangeiro, atacando seu próprio governo nacional. Ambos pertencem ao mesmo espectro: a direita que governa para os ricos, fecha os olhos para os pobres e enxerga a política como trampolim para interesses pessoais e ideológicos.

Lamentável — mas nada surpreendente. Faltou apenas Ibaneis Rocha bater continência para a bandeira americana, como já o fez, certa vez, seu mentor ideológico, Jair Bolsonaro.

Leia a carta na íntegra:

“Brasília, 12 de agosto de 2025

À Sua Excelência

Sr. Donald John Trump
Presidente dos Estados Unidos da América
Washington, D.C. – EUA

Assunto: Segurança Pública no Distrito Federal.

Excelentíssimo Senhor Presidente,

Cumprimentando-o cordialmente, reafirmo o respeito e a admiração pela histórica relação de cooperação e amizade entre o Brasil e os Estados Unidos da América, ciente de que o diálogo transparente e baseado em fatos é o alicerce de qualquer parceria sólida.

Em razão de recentes declarações públicas proferidas por Vossa Excelência, nas quais Brasília foi mencionada de forma comparativa a localidades internacionalmente reconhecidas por elevados índices de violência, é necessário esclarecer, com base em dados oficiais, que tal percepção não reflete a realidade da capital brasileira. São informações equivocadas, possivelmente decorrentes da atual ausência de um diálogo mais consistente entre o Brasil e os Estados Unidos da América.

No modelo federativo brasileiro, cada estado e o Distrito Federal possui autonomia para estruturar e conduzir sua própria política de segurança pública. Nesse contexto, o Governo do Distrito Federal, por mim conduzido, é de centro-direita, em oposição ao atual Governo Federal, de esquerda. Por isto, a segurança pública da capital do Brasil tem por foco resultados concretos, livre de vieses ideológicos. O sucesso obtido decorre da autonomia de Brasília, garantida pela Constituição Federal do Brasil, e da determinação de proteger a população acima de interesses partidários.

A condução da segurança pública no Distrito Federal se alinha, em sua essência, à visão de “lei e ordem”, reforçando que o combate firme ao crime, associado a políticas sociais de alcance real, é o caminho para uma sociedade segura e próspera.

Exemplo disso são as políticas sociais e de segurança integradas que o Governo do Distrito Federal executa de forma independente da União. Entre elas, destaca-se o Plano de Ação para Efetivação da Política Distrital para a População em Situação de Rua, pioneiro no país, elaborado antes mesmo da Política Nacional prevista na Lei nº 14.821/2024. Este plano é intersetorial, garantindo acolhimento, atendimento de saúde, qualificação profissional, acesso a programas habitacionais e alimentação gratuita nos restaurantes comunitários.

A integralidade na segurança pública do Distrito Federal, como implementada pelo Programa Segurança Integral, refere-se à abordagem abrangente que visa a atuação integrada de diversos órgãos e setores para garantir a segurança da população. Essa abordagem envolve a participação da comunidade, através dos Conselhos Comunitários de Segurança (CONSEGs), e a articulação com diferentes áreas do governo, buscando soluções eficazes para os problemas de segurança.

Os CONSEGs são espaços onde a comunidade pode participar ativamente na formulação e discussão de políticas de segurança pública, por meio de reuniões mensais, abertas a todos os cidadãos, fortalecendo o trabalho das forças de segurança e do governo, ampliando a voz da comunidade.

O programa Segurança Integral é estruturado em seis eixos principais:
1. Cidade Mais Segura: Focado em ações de segurança urbana e prevenção da violência.

2. Escola Mais Segura: Busca garantir um ambiente escolar seguro e protegido para alunos e profissionais.

3. Cidadão Mais Seguro: Promove a participação cidadã e a conscientização sobre segurança.

4. Mulher Mais Segura: Desenvolve ações para proteger as mulheres e combater a violência de gênero.

5. Servidor Mais Seguro: Valoriza e protege os profissionais da segurança pública.

6. Campo Mais Seguro: Voltado à proteção da população e da zona rural do Distrito Federal.

Conforme o Atlas da Violência 2024, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Brasília registrou, no ano passado, taxa de 6.9 homicídios para cada 100 mil habitantes, sendo a terceira menor entre todas as capitais de estado do Brasil. Este resultado representa um marco histórico e reflete políticas públicas assertivas, uso intensivo de tecnologia e integração das forças policiais.

Em 2025, ações estruturantes foram ampliadas, das quais se destaca:

1. Lançamento do Programa Acolhe DF (Decreto nº 47.423/2025), para reinserção social de dependentes de álcool e drogas;

2. Inauguração do Hotel Social, garantindo pernoite, alimentação, higiene pessoal e abrigo para pessoas em situação de rua e seus animais de estimação;

3. Benefício financeiro emergencial de R$ 600,00 a pessoas em vulnerabilidade extrema;

4. Encaminhamento de pessoas em situação de rua a programas como o RenovaDF, destinado à capacitação e empregabilidade.

Os números confirmam a efetividade dessa estratégia: o 2º Censo Distrital da População em Situação de Rua (2025) apontou crescimento de 19,8% nessa população em relação a 2022 — índice inferior à média nacional de 25% —, evidenciando que o conjunto de políticas do Distrito Federal mitiga o avanço da vulnerabilidade.

Registre-se que na atual gestão foi alcançado o menor índice de homicídios dos últimos 48 anos, fruto do investimento na contratação de mais 5 mil servidores de segurança pública, na duplicação dos pontos de monitoramento eletrônico e outras ações. A metodologia de gestão da segurança no Distrito Federal é realizada de forma coordenada, contando com a atuação integrada da Polícia Militar, da Polícia Civil, do Corpo de Bombeiros, da Polícia Penal e do Departamento de Trânsito, garantindo respostas rápidas e eficientes às demandas da população.

Além disso, adota o conceito de “segurança integral”, que vai além da repressão ao crime e busca envolver ativamente a sociedade na formulação e no acompanhamento das políticas públicas voltadas à cidadania, fortalecendo o vínculo entre Estado e comunidade e assegurando resultados sustentáveis.

Diferentemente do atual Governo Federal, acredito no diálogo e na força das relações diplomáticas. Tenho, de forma reiterada, afirmado que o Governo Federal deve abandonar disputas ideológicas e adotar uma postura pragmática nas relações internacionais, abrindo canais de negociações produtivas com os Estados Unidos da América. Para este Governo do Distrito Federal, interesses geopolíticos e comerciais devem estar acima de divergências político-partidárias.

Recentemente, inclusive, promovi reunião com governadores de diversos estados brasileiros, com o objetivo de defender a abertura do diálogo direto com o governo norte-americano. Durante o encontro, enfatizou-se a necessidade de redução da tensão entre os dois países e de que haja atuação coordenada com o Congresso Nacional, visando minimizar prejuízos à economia nacional.

Por fim, com respeito, manifesto interesse em fortalecer as pontes políticas e institucionais entre os dois países.
Respeitosamente,

Ibaneis Rocha
Governador do Distrito Federal
República Federativa do Brasil”

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