As patacoadas do governador carioca de São Paulo, Tarcísio de Freitas
A dubiedade de suas declarações, somada à sua oscilação entre o discurso bolsonarista e o desejo de ser visto como moderado, resultou na perda de credibilidade
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), vive um dos piores momentos de sua ainda curta trajetória política. O ex-ministro da Infraestrutura transformou o segundo semestre de 2025 em um verdadeiro inferno astral. Desde que o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, passou a articular diretamente com o bolsonarismo novas sanções contra o Brasil, Tarcísio não para de colecionar erros políticos, constrangimentos públicos e críticas vindas de todos os lados do espectro ideológico.
O estopim do vexame ocorreu em 9 de julho, quando, em meio à crise causada pela tarifa de 50% imposta por Trump a produtos brasileiros — numa ação patrocinada por Eduardo Bolsonaro — Tarcísio resolveu atacar o presidente Lula, acusando-o de colocar “sua ideologia acima da economia”. No dia seguinte, publicou um vídeo celebrando a própria bravata, enquanto almoçava numa churrascaria em Brasília ao lado de Bolsonaro. A tentativa de surfar na onda bolsonarista e se beneficiar eleitoralmente da crise, porém, saiu pela culatra.
Dias depois, o governador anunciou uma reunião com Gabriel Escobar, representante da Embaixada dos EUA, tentando parecer um estadista responsável que buscava minimizar os impactos da tarifa sobre a economia nacional. O gesto, porém, irritou o clã Bolsonaro. Eduardo, direto dos Estados Unidos, tratou de desautorizar publicamente o aliado. À Folha de S.Paulo, disparou: “O Tarcísio utilizou os canais errados. O filho do presidente está nos Estados Unidos e tem acesso à Casa Branca”. Em outras palavras: a geopolítica do bolsonarismo é monopólio hereditário, e qualquer passo fora da hierarquia familiar é visto como traição.
Se a ala ideológica o criticava, o mercado não poupava. A Faria Lima, tradicional reduto do conservadorismo liberal, usou o editorial do Estadão para dar o recado: “Tarcísio se encardiu de bolsonarismo e, em troca, recebeu dos Bolsonaros o mais absoluto desprezo”. A análise, incomum em tom e contundência, aconselhava o governador paulista a romper definitivamente com o bolsonarismo caso quisesse preservar alguma viabilidade futura na política nacional.
No O Globo, o tom foi ainda mais duro. Merval Pereira, articulista do jornal e porta-voz dos interesses da elite do centro político, classificou a atuação de Tarcísio como um “erro brutal” que compromete não apenas sua candidatura presidencial em 2026, mas até sua própria reeleição ao governo de São Paulo. O diagnóstico de Merval foi categórico: Tarcísio sabotou a si mesmo ao agir de forma imprudente e tentar agradar simultaneamente, à elite financeira e ao bolsonarismo.
Como se não bastasse o desgaste causado pelas trapalhadas diplomáticas, Tarcísio mergulhou ainda mais no ridículo ao propor, nos bastidores, que o Supremo Tribunal Federal liberasse Jair Bolsonaro para negociar pessoalmente com Trump o fim da chamada "bolsotaxa". A proposta foi recebida com chacota nos corredores do STF e aumentou o isolamento político do governador, que passou a ser visto como cúmplice de uma tentativa de fuga disfarçada do ex-presidente.
No dia 18 de julho, após Bolsonaro ser obrigado pela Justiça a usar tornozeleira eletrônica, Tarcísio tentou demonstrar solidariedade publicando uma mensagem emocional em suas redes sociais: “Coragem é um atributo que quem conhece Jair Bolsonaro sabe que nunca lhe faltou. Não imagino a dor de não poder falar com um filho”. O texto, que pretendia ser conciliador, provocou nova onda de críticas. Paulo Figueiredo, neto do ditador João Figueiredo e aliado de Eduardo Bolsonaro, ironizou a declaração e acusou Tarcísio de tentar vender a ideia de “equilíbrio” quando “um lado tem toda a força e nós temos fraqueza”.
A tentativa de agradar todos os setores fracassou novamente. No mesmo dia, o governador publicou outra mensagem em tom enigmático, sugerindo que “não haverá paz social sem eleições livres, justas e competitivas”, o que foi interpretado por petistas e membros do governo como uma insinuação velada contra o sistema eleitoral brasileiro. A crítica soou estranha mesmo entre seus próprios aliados, especialmente porque o próprio Tarcísio, em março, elogiara publicamente o sistema eletrônico de votação, classificando-o como “referência para o mundo”.
Segundo aliados, a intenção do governador era apenas lamentar a exclusão de Bolsonaro da corrida presidencial de 2026, mas o estrago já estava feito. A dubiedade de suas declarações, somada à sua oscilação entre o discurso bolsonarista e o desejo de ser visto como moderado, resultou na perda de credibilidade.
Neste momento, Tarcísio parece sem bússola e sem base. Rejeitado pela elite que o projetou, desautorizado pelo bolsonarismo que ainda tenta cortejar, e sob desconfiança de setores democráticos que o viam como possível nome da “terceira via”, o governador paulista enfrenta um momento crítico. A alcunha de "governador carioca de São Paulo", antes uma provocação jocosa, hoje parece uma descrição precisa de alguém que, mesmo comandando o principal estado da federação, ainda não compreendeu a liturgia do cargo nem a complexidade do país que pretende governar.
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