As “instituições” não detêm um governo que deixa um rastro de destruição
A desdemocratização e seu rastro
Por Luis Felipe Miguel, professor, no ComCiência
Como foi possível a vitória de Bolsonaro, em 2018? Os analistas políticos elencam um bom número de motivos – o veto de setores poderosos ao Partido dos Trabalhadores e à centro-esquerda em geral, as intervenções de força que macularam a legitimidade do pleito (como a prisão do ex-presidente Lula), a massiva campanha de desinformação, o efeito da facada de Juiz de Fora. Ainda assim, é chocante pensar que quase 58 milhões de brasileiros julgaram que o ex-capitão, com tão notória ficha corrida, poderia ocupar a presidência da República. Passados quase dois anos e meio, a pergunta é outra, e ainda mais desafiadora. Como é possível que ele permaneça no cargo?
Chegamos ao início de maio de 2021 com a pandemia no elevado platô de 15 a 20 mil mortes semanais, que coloca o Brasil na posição de um dos epicentros mundiais da Covid-19. Até agora, mais de 400 mil brasileiros perderam a vida – e não há luz no fim do túnel, dado o renitente negacionismo e o descaso com a vacinação.
Não é só a pandemia. Ela agravou o quadro, mas desde o início do governo havia voltado a crescer o número dos que vivem em situação de pobreza extrema, alcançando hoje a faixa dos 30 milhões de pessoas. O real é uma das moedas campeãs de desvalorização. Inúmeras grandes empresas estão deixando o país. A renda dos salários caiu vertiginosamente. O efeito de uma “classe média” declinante, em termos numéricos e de poder aquisitivo, é a depreciação do mercado interno, com repercussões em toda a economia.
A devastação ambiental foi acelerada. Dissipou-se a respeitabilidade do país nos foros internacionais. Vastos setores do aparato repressivo de Estado têm sido aparelhados, agindo como milícias a serviço dos donos do poder.
Quem, fora um punhado de capitalistas e de milicianos, pode em sã consciência afirmar que sua vida está melhor com o governo Bolsonaro?
Mas as famosas “instituições”, que insistentemente se diz que “estão funcionando”, se mostram incapazes de deter um governo que deixa um rastro de destruição e que não esconde sua intenção de desfazer tudo o que resta da ordem democrática no país. O campo popular encontra dificuldade para se mobilizar, quando não foca inteiramente nas eleições futuras ou dissipa sua energia com o Big Brother Brasil e tretas assemelhadas. E uma parcela, minoritária mas muito significativa, da população continua aprovando Bolsonaro e sua gestão, a despeito de seu indiscutível impacto nefasto na vida de (quase) todos.
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