Anotações de coronel apontam que golpe “sempre foi a intenção” de Bolsonaro em 2022
Documentos e mensagens de assessor de Braga Netto expõem bastidores de plano golpista de Bolsonaro
Mensagens, anotações e documentos extraídos pela Polícia Federal (PF) do celular do coronel da reserva do Exército Flávio Peregrino, assessor do general Walter Braga Netto, revelam bastidores inéditos das articulações golpistas que se seguiram à derrota de Jair Bolsonaro (PL) nas eleições de 2022. O material, divulgado pelo jornal O Estado de S. Paulo, foi apreendido em dezembro de 2023, durante operação que também levou à prisão de Braga Netto.
As anotações indicam que Bolsonaro “sempre quis” permanecer no cargo mesmo após a derrota nas urnas e que militares próximos a ele atuaram para viabilizar essa permanência. O conteúdo contradiz a narrativa do ex-presidente, segundo a qual ele teria resistido a pressões para um golpe, e reforça as acusações que serão julgadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Peregrino registrou incômodo com a estratégia de defesa de Bolsonaro, que buscava transferir aos militares a responsabilidade pelas articulações. Em um trecho, escreveu: “Oportunismo e o que mostra que tudo será feito para livrar a cabeça do B [Bolsonaro]. Estão colocando o projeto político dele acima das amizades e da lealdade que um Gen H [Augusto Heleno] sempre demonstrou ao B”.
Segundo o coronel, aliados e advogados envolvidos afirmavam que as propostas debatidas — como a decretação de Estado de Defesa, Estado de Sítio, uso da Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e do artigo 142 da Constituição — eram justificadas por supostas suspeitas de parcialidade no processo eleitoral e desconfiança nas urnas eletrônicas. Peregrino foi categórico: “Tudo isso para achar uma solução e ajudar o Pres. B [presidente Bolsonaro] a se manter no governo (pois SEMPRE foi a INTENÇÃO dele)”.
O militar também criticou a postura de Bolsonaro ao permitir que os militares fossem responsabilizados: “Deixar colocarem a culpa nos militares que circundavam o poder no Planalto é uma falta total de gratidão do B àqueles poucos, civis e militares, que não traíram ou abandonaram o Pres. B após o 2º turno”.
Peregrino fez ainda uma autocrítica, admitindo que “erraram todos” por não desmobilizar os acampamentos em frente a quartéis e por não convencer Bolsonaro a abandonar o plano de permanecer no poder. Em mensagens enviadas a si mesmo no WhatsApp, resumiu seu descontentamento com a palavra “negação, embaixada, prisão…”.
Em 2 de dezembro de 2024, voltou ao tema, apontando “desorientação” e “falta de coerência” nas ações e afirmando que Bolsonaro estaria “forçando” uma prisão para sustentar a tese de perseguição pelo STF.
Nove meses depois, em 4 de agosto de 2025, o ministro Alexandre de Moraes decretou a prisão domiciliar de Bolsonaro, após o descumprimento de medidas cautelares impostas no âmbito das investigações sobre tentativa de golpe de Estado.
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