Alta do diesel e da gasolina vão além do custo e levantam suspeita de prática abusiva no Brasil
Lucros de distribuidoras explodem e governo intensifica fiscalização
O aumento das margens de lucro de distribuidoras e postos de combustíveis no Brasil ganhou força em 2026, em meio à alta do petróleo no mercado internacional e às tensões geopolíticas envolvendo a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. Dados do Relatório Mensal do Mercado de Derivados de Petróleo, divulgado pelo Ministério de Minas e Energia (MME), revelam que a diferença entre o custo de aquisição e o preço final ao consumidor cresceu de forma expressiva no país.
Segundo o levantamento, a margem da gasolina subiu quase 28% desde janeiro, enquanto o diesel S-10 registrou alta superior a 17%. O maior salto foi observado no diesel S-500, com avanço superior a 103% no período — combustível amplamente utilizado por veículos mais antigos.
Alta das margens desafia medidas do governo Lula
O crescimento das margens ocorre mesmo diante das ações do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para conter o preço dos combustíveis. Entre as medidas adotadas estão a redução de impostos federais e a criação de subsídios para diesel, que deveriam gerar queda de até R$ 0,64 por litro.
Apesar disso, especialistas apontam que o aumento das margens pode neutralizar os efeitos dessas políticas. O economista Eric Gil Dantas, do Instituto Brasileiro de Estudos e Pesquisas Sociais, afirma que o fenômeno não é novo, mas se intensificou com o cenário internacional instável. “Em momentos de tensão e risco de desabastecimento, o consumidor aceita pagar mais caro para não ficar sem combustível”, avalia.
Dados históricos reforçam essa tendência: desde 2021, a margem do diesel S-500 acumulou alta de 302%, enquanto o diesel S-10 subiu 115% e a gasolina 90%. No mesmo período, a inflação geral foi de cerca de 35%, evidenciando um crescimento muito acima do índice oficial.
Distribuidoras negam abuso e citam aumento de custos
Representantes do setor de combustíveis rejeitam a tese de aumento abusivo e atribuem a elevação das margens a fatores como custos logísticos, fretes mais caros, valorização do câmbio e aumento da demanda durante o escoamento da safra agrícola.
Um executivo do setor afirmou que os preços da Petrobras estariam defasados — cerca de R$ 2,70 no diesel e R$ 1,60 na gasolina — sendo mantidos artificialmente baixos por razões políticas. Segundo ele, o governo estaria em um “beco sem saída” ao tentar responsabilizar o setor.
Além disso, empresas destacam o aumento das importações de combustíveis, que elevam custos operacionais devido ao frete marítimo, necessidade de capital de giro e preços mais altos no mercado externo.
ANP intensifica fiscalização e encontra indícios de irregularidades
Diante das suspeitas de práticas abusivas, o governo federal acionou a Agência Nacional do Petróleo (ANP) para intensificar a fiscalização. Entre 16 e 20 de março, uma operação nacional inspecionou 154 agentes econômicos em 12 estados, resultando em 11 autuações por indícios de preços abusivos e nove interdições.
A ação foi baseada na Medida Provisória nº 1.340, que ampliou os poderes da ANP para combater irregularidades como reajustes sem justificativa técnica. As multas podem variar de R$ 50 mil a R$ 500 milhões.
Casos investigados revelam descolamento entre custo e preço
Relatórios da ANP indicam discrepâncias relevantes entre custos e preços praticados por distribuidoras. Em alguns casos, os reajustes chegaram a R$ 1,75 por litro, mesmo com custos estáveis ou em queda.
Entre os exemplos:
- Ipiranga: custo praticamente estável, mas aumento de até R$ 0,89 por litro no preço final
- Nexta Distribuidora: alta de R$ 1,75 no preço com aumento de apenas R$ 0,017 no custo
- SIM Distribuidora: margem ampliada em R$ 0,97 por litro
- ALE (Alesat): custo em queda, mas aumento superior a R$ 1,14 por litro
- Vibra Energia: elevação de R$ 1,06 no preço com custo subindo apenas R$ 0,03
Segundo os fiscais, não houve justificativas proporcionais para os aumentos, já que não refletiam diretamente os impactos da crise internacional nem variações relevantes nos preços da Petrobras.
Empresas contestam fiscalização e defendem livre mercado
'As distribuidoras contestam os dados da ANP e afirmam que a formação de preços no setor é complexa e depende de múltiplos fatores, como logística, câmbio, fontes de suprimento e condições regionais.
A Ipiranga declarou que tem intensificado a importação de combustíveis diante do cenário internacional e que mantém “processos robustos de governança”. Já a SIM e a Nexta afirmaram que colaboram com a investigação e seguem a legislação vigente.
A ALE não se manifestou até a última atualização da reportagem.
Governo acompanha escalada e mantém pressão sobre o setor
Com a abertura de processos administrativos, as empresas terão prazo para apresentar defesa. A ANP será responsável pelo julgamento dos casos, podendo aplicar multas milionárias conforme a gravidade das infrações.
Enquanto isso, o avanço das margens de lucro no setor de combustíveis segue como um dos principais pontos de tensão entre governo, empresas e consumidores — com impacto direto no custo de vida e na inflação no Brasil em 2026.
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