Agronegócio transforma Festa do Peão de Barretos em palanque para a extrema direita
Os governadores Tarcísio de Freitas, Romeu Zema e Ronaldo Caiado aproveitaram a presença da elite do agronegócio para ensaiar uma prévia da corrida presidencial de 2026
A Festa do Peão de Barretos, tradicional reduto ruralista no interior paulista, transformou-se em palco político neste sábado (23). Os governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Romeu Zema (Novo-MG) e Ronaldo Caiado (União-GO) aproveitaram a presença da elite do agronegócio para ensaiar uma prévia da corrida presidencial de 2026.
Em discursos embalados por promessas de grandeza e união, os três ensaiaram uma frente contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Tarcísio, considerado o nome mais viável do campo direitista, fez referência indireta a Jair Bolsonaro, exibindo brevemente um boneco inflável do ex-presidente, antes de escondê-lo. Caiado e Zema reforçaram o discurso de “união da direita” no segundo turno, em estratégia alinhada a Michel Temer para espalhar candidaturas no primeiro turno e convergir contra Lula na etapa decisiva.
Os organizadores da festa, historicamente identificados com o bolsonarismo, não esconderam a preferência pelo ex-presidente, descrito como um político que “fala a língua do sertanejo”.
Do aliado fiel ao setor mais atingido
O cenário exposto em Barretos revela uma contradição central da política brasileira recente: o agronegócio, pilar da base de Jair Bolsonaro, hoje figura entre os setores mais prejudicados pelo tarifaço imposto por Donald Trump às exportações brasileiras.
A medida, articulada nos bastidores por Eduardo Bolsonaro, que atua de forma cada vez mais alinhada à extrema direita norte-americana, expôs o preço da dependência do agronegócio ao projeto político da família Bolsonaro. Ao tentar salvar a pele do pai e manter relevância internacional, Eduardo sacrificou justamente o setor que mais sustentou o bolsonarismo no Brasil.
O contraste com Lula
O contraste é visível quando se observa os últimos anos: foi durante os governos Lula que o agronegócio mais encontrou a presença efetiva do Estado — seja em linhas de crédito, investimento em infraestrutura, abertura de mercados ou políticas de incentivo à exportação. Mesmo em momentos de embate com movimentos sociais do campo, o setor nunca deixou de contar com políticas públicas robustas de apoio.
Hoje, em meio ao tarifaço e às incertezas da sucessão presidencial, o agronegócio se vê pressionado a escolher: manter a aposta em figuras ligadas a Bolsonaro, agora fragilizadas e conflituosas entre si, ou buscar novas pontes com um governo que, apesar das críticas, historicamente garantiu estabilidade e crescimento ao setor.
Perspectiva eleitoral
A movimentação em Barretos deixa claro que a disputa pelo agronegócio será central na eleição de 2026. Tarcísio, apoiado por setores da Faria Lima e pela mídia comercial, tenta se vender como um bolsonarista moderado para conquistar tanto a base radical quanto a elite empresarial. Caiado joga com a tradição ruralista do Centro-Oeste, enquanto Zema aposta em sua gestão em Minas Gerais.
Mas o setor produtivo, que até ontem via Bolsonaro como aliado incondicional, agora carrega a marca da traição estratégica do clã, que ajudou a abrir as portas para o tarifaço. Nesse contexto, a promessa de “união contra Lula” pode soar menos sedutora para empresários do campo que sabem, na prática, onde o Estado esteve presente quando mais precisaram.
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