Oscar de Barros

A fé permanece, o coração protesta: reflexões de um filho de Bocaina no Dia de Nossa Senhora da Conceição

Este ano, tomei uma decisão dolorosa: não compareci ao 8 de dezembro em Bocaina, espero que, em 2026, eu possa retornar com o coração mais leve


Reprodução A fé permanece, o coração protesta: reflexões de um filho de Bocaina no Dia de Nossa Senhora da Conceição
A primeira igreja, a segunda, a que está em fase de conclusão e Nossa Senhoras da Conceição

Hoje, 8 de dezembro, celebra-se o dia de Nossa Senhora da Conceição.

É uma data muito importante para os católicos brasileiros.

É uma data muito importante para os católicos do Piauí.

É uma data muito importante para o povo de Bocaina: Nossa Senhora da Conceição é a padroeira daquela cidade.

É uma data muito importante para mim: nasci na Bocaina, em 8 de dezembro.

Cresci sob a influência espiritual e cultural dessa devoção. Minha crença em Nossa Senhora da Conceição nasce tanto das minhas experiências íntimas quanto das raízes familiares.
O exemplo de Maria é lindo, é grande. “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco. Bendita sois vós entre as mulheres, e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amém.” Esta é a mais bela das orações e é um resumo de quem é Maria.
Reconheço e respeito aqueles cuja devoção se volta exclusivamente a Deus e a Jesus; meu coração também se volta a Eles. Mas, diante da história e da figura de Maria, como não abrir também o coração para ela?

E tem os aspectos culturais também. Minha relação com essa devoção atravessa a memória afetiva. Ao lado de meu pai, pude acompanhar alguns festejos, mesmo que esporadicamente. Recordo-me com nitidez do gesto dele diante do altar sagrado: aquele longo corpo sertanejo ajoelhava uma das pernas e a outra ficava flexionada, o chapéu retirado da cabeça e levado ao peito num silêncio reverente.
Com minha mãe, vivi inúmeras novenas e missas. A fé dela era tão intensa que parecia palpável.

Depois de voltar ao Piauí, em 1986, mamãe instituiu uma tradição afetiva: logo após a missa da padroeira, celebrávamos meu “aniversário” com bolo, parabéns e alegria. Ela queria porque queria cantar parabéns para mim, e com direito a bolo de aniversário. E, assim, era feito. Após a missa e o ato dela dar esmolas aos pedintes, nos dirigíamos para o bar de “Zé de Cural” e, lá, sob o forte sol piauiense, entre panelas de alumínio que o comércio vendia, ao som de Rafael – sanfoneiro – e embalados com muita cerveja, encontrávamos parentes e amigos e festejávamos meu aniversário. Mamãe morreu em 2010, mas a tradição foi mantida pelos irmãos.

Este ano, porém, tomei uma decisão dolorosa: não compareci às celebrações do 8 de dezembro em Bocaina. Estou em Teresina, onde escrevo e publico este texto. É um silencioso protesto contra a indiferença, o descaso e a discriminação de pessoas comuns da minha fraterna comunidade de nascimento.

Minha ausência não tem qualquer relação com Nossa Senhora da Conceição — a fé permanece intacta. O problema está nas atitudes de clérigos e leigos que administram a igreja local, tema que já abordei anteriormente, mas que pode ser revisto aqui: Igreja de Bocaina: inacessível e discriminatória

Não estive na missa porque não me sentiria bem ao lado das pessoas que protagonizaram os episódios que denunciei. Acionei o Ministério Público buscando garantir acessibilidade na igreja. O MP acolheu os argumentos da Diocese de Picos, não os meus. Mesmo assim, não encerro a luta: agora, levarei o caso à Justiça comum.

Espero que, em 2026, eu possa retornar a Bocaina com o coração mais leve e com as condições adequadas para reverenciar Nossa Senhora da Conceição como sempre fiz.

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