Política

À espera dos bárbaros - um recado para Bolsonaro, Barroso, Moro, e o lavajatismo

Poema de Konstantinos Kaváfis

  • sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Em seu voto contra a prisão após condenação na segunda instância, Rosa Weber citou o poeta grego Konstantinos Kaváfis.

“À espera dos bárbaros” é considerado por muitos críticos como um dos mais belos poemas de todos os tempos.

Homossexual, helenista, Kaváfis era um nostálgico de um mundo clássico idealizado. Nasceu, viveu e morreu aos 70 anos em Alexandria, no Egito.

Rosa deu um recado para Bolsonaro, Barroso, Moro, o bolsonarismo e o lavajatismo.

Foto: Google ImagensKonstantinos Kaváfis
Konstantinos Kaváfis

À ESPERA DOS BÁRBAROS 

Konstantinos Kaváfis

O que esperamos nós em multidão no Forum?

Os Bárbaros, que chegam hoje.

Dentro do Senado, porque tanta inacção?

Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?

É que os Bárbaros chegam hoje.

Que leis haveriam de fazer agora os senadores?

Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis.

Porque é que o Imperador se levantou de manhã cedo?

E às portas da cidade está sentado,

no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?

Porque os Bárbaros chegam hoje.

E o Imperador está à espera do seu Chefe

para recebê-lo. E até já preparou

um discurso de boas-vindas, em que pôs,

dirigidos a ele, toda a casta de títulos.

E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,

hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?

E porque levavam braceletes, e tantas ametistas,

e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas?

E porque levavam hoje os preciosos bastões,

com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?

Porque os Bárbaros chegam hoje,

e coisas dessas maravilham os Bárbaros.

E porque não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores

para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?

Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,

e aborrecem-se com eloquências e retóricas.

Porque, sùbitamente, começa um mal-estar,

e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!

E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,

e todos voltam para casa tão apreensivos?

Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.

E umas pessoas que chegaram da fronteira

dizem que não há lá sinal de Bárbaros.

E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?

Essa gente era uma espécie de solução.

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