Visibilidade Trans: Teresinense fala sobre transição, luta por direitos e preconceito

Sávio Sousa, homem trans, começou sua transição em 2017 e, em 2018, fez sua retificação de nome e gênero

Foto: Reprodução/arquivo pessoalSávio Sousa, homem trans, que até a fase adolescente era Sarah
Sávio Sousa, homem trans, que até a fase adolescente era Sarah

No último dia 29 de janeiro, é celebrado o Dia da Visibilidade Trans, que engloba pessoas que se identificam como travestis, mulheres transgênero, homens transgênero, pessoas transmasculinas, pessoas não binárias e gênero dissidentes. A data foi oficializada em 2004, quando um grupo de ativistas transgêneros foi ao Congresso Nacional se manifestar em favor da campanha "Travesti e Respeito", em um histórico ato político em favor do respeito à diversidade de identidade de gênero no Brasil.

A celebração tem o objetivo de conscientizar sobre a luta por direitos e pelo reconhecimento da identidade e sobre o combate à transfobia.

Segundo o Senado Federal, "além de alertar sobre os números alarmantes relacionados à violência promovida por ódio e preconceito contra a população transexual", a data busca algumas iniciativas, sendo as principais:

1 - promover reflexões sobre o respeito à identidade de gênero e à orientação sexual;

2 - garantir fácil acesso do sistema para que essas pessoas utilizem seu nome social;

3 - assegurar tratamentos de saúde e acompanhamento de seus processos de transição de gênero;

4 - promoção de políticas públicas para a inserção de transexuais e travestis no mercado de trabalho.

O pensarpiauí conversou com o analista de dados, Sávio Sousa, de 23 anos. Sávio é um homem trans, começou sua transição em 2017 e, em 2018, fez sua retificação de nome e gênero.

Foto: Reprodução/arquivo pessoalSávio Sousa
Sávio Sousa, 23 anos 

Foto: Reprodução/arquivo pessoalSávio antes da transição era Sarah
Sávio antes da transição era Sarah

O homem trans, transgênero ou transexual é um homem que foi designado ao sexo feminino quando nasceu, contudo, este se atribui ao gênero masculino. Quando criança até fase adolescente, Sávio era Sarah Mireya.

Foto: Reprodução/arquivo pessoalSávio Sousa
Sávio Sousa, homem trans 

Confira a entrevista na íntegra: 

Pensarpiauí- Como tudo começou, como você chegou a essa decisão? Você teve apoio da família? 

Sávio- Bom os sinais eles começam e a gente nem sabe né, é só com o tempo que a gente começa a entender eles de fato, mas, considero que tudo começou em 2015/2016 quando eu comecei a me incomodar com os pronomes femininos, até então não se existia o termo “homem trans” no mundo, e eu não sabia muito bem o que estava acontecendo, só sabia que aqueles pronomes, aquele nome feminino não combinava comigo e com a forma que eu me sentia bem, foi passando o tempo e fui vendo que isso se tornava mais presente e mais forte dentro de mim e eu tinha muito medo de externalizar isso, sofrer, e fazer minha família sofrer de alguma forma. 

Ouvi então falar de João Nery, ele foi o primeiro homem trans a realizar a cirurgia de redesignação sexual no Brasil, em 1977, e era ativista pelos direitos LGBTQIAP+, aquela história me fez entender muita coisa e fui procurar saber um pouco mais sobre as pessoas trans e aí conclui que era isso que seria a vida “perfeita” para mim, isso tudo até a página dois né, pois quando eu comecei e ver o quanto éramos e somos ainda hoje alvo de tantos discursos de ódio, temos nossas vidas tiradas brutalmente a troco de nada, e pensei: “eu nem sei se eu suporto passar por tudo isso”, mas me autoafirmei que era isso e que eu iria lutar até o fim por isso, que isso era SER EU, e afirmei novamente: “Eu sou um homem trans!”.

Contei para minha família, graças a Deus tive muito apoio, minha mãe quando começou a perceber que eu usava as roupas do meu pai começou a comprar roupas “masculinas”, meu pai, muito amigo sempre em tudo, então minha família começou a se adaptar com meus novos pronomes, tenho uma irmã caçula que briga com qualquer pessoa pelo uso do meu nome corretamente. 

Pensarpiauí- E as dificuldades/processos da transição?

Sávio- Os hormônios mexem muito com a nossa cabeça também, importante falar sobre isso. Um recado para as pessoas trans que estão afirmando seus gêneros agora: é muito importante o acompanhamento médico nesse processo de todas as especialidades competentes como psicólogo, endocrinologista, cardiologista e etc. Importante para entender e cuidar de si. 

O hormônios nos desencadeiam vários efeitos visivelmente ótimos, como a tão sonhada barba, voz, mas, em contrapartida, desenvolvemos ansiedade, depressão entre outros. Então a transição com acompanhamento médico é o ideal. 

Sigo realizando meus sonhos enquanto pessoa trans, recentemente consegui fazer minha cirurgia de retirada das mamas (mastectomia masculinizadora) pelo plano de saúde, sou muito feliz por isso e espero que muitas famílias de pessoas trans vejam isso e  até mesmo quem não tem parentes ou amigos que são pessoas trans. Por favor, nos respeitem, estamos querendo o básico, viver com nossos direitos respeitados como um cidadão!

Pensarpiauí- Como você se sente hoje sendo uma pessoa trans aqui no Piauí, você se sente acolhido pelas pessoas? Já sofreu preconceito ou viu amigos sofrendo?

Sávio- Como uma pessoa trans aqui do Piauí eu sinto que as pessoas ainda precisam muito buscar pelo menos entender o básico sobre identidades de gênero, orientações sexuais, sinto que as empresas precisam ser mais inclusivas, mas me sinto acolhido sim, acredito que vamos evoluindo aos poucos! 

Já sofri preconceitos antes de fazer a reposição hormonal por conta da voz, as pessoas não conseguiam respeitar meus pronomes, era muito constrangedor, perguntas constrangedoras. Já vi vários amigos, amigas e amigues sofrendo preconceito, intolerância. Tivemos o caso da travesti que foi barrada por um clube bem conhecido de Teresina simplesmente por ser travesti, denunciou a Transfobia, mas não foi tomada nenhuma ação contra o clube por parte da lei do estado. 

Pensarpiauí- Você acha que Estado tem políticas públicas para pessoas trans? 

Sávio- Acredito que ainda precisamos de mais, precisamos ter menos burocracia na nossa retificação de nome e gênero, atendimento LGBTQIAP+ nos hospitais a fim de dar suporte em hormônios e até mesmo nos procedimentos cirúrgicos que há casos que precisamos fazer por questões psicológicas, que todas as pessoas transfóbicas paguem sempre que cometerem isso de acordo com a lei, que tenhamos mais projetos LGBTQIAP+ nas escolas, educação, orientação. Nós temos projetos maravilhosos e independentes, onde podemos unir nossas forças, estamos buscando conseguir cada vez mais espaços para produzirmos nossos eventos de Ballroom (Nos anos 80, a comunidade LGBT encontrava refúgio nas ballrooms. Muito além de uma simples festa, a ballroom era e ainda é um espaço de acolhimento, um lugar seguro onde essas pessoas que viviam diariamente às margens da sociedade poderiam, ao menos por uma noite, se sentirem bem consigo mesmos).

Pesnarpiauí- Qual sua profissão e onde você trabalha? Você acha que pessoas trans tem mais dificuldade para entrar no mercado de trabalho aqui no Piauí ou sempre são bem aceitas? 

Sávio- Sou Analista de Dados em um call center de São Paulo, por muitos anos trabalhei em um call center daqui de Teresina e acredito que o ramo em específico é um meio muito inclusivo, faço minha carreira até hoje nessa mesma área. Porém, as outras oportunidades que existem aqui ainda vejo que não nos recebem muito bem, a maior parcela disso acontece com as mulheres travestis e homens trans pré-transicionados (homens trans que estão no começo da transição, ou por questões de saúde ou individual optam pelo não uso de hormônios), e isso infelizmente ainda é muito recorrente nas empresas.

Pensarpiauí- Fale sobre preconceito e deixe um recado para a sociedade: 

Sávio- O preconceito ele regride uma sociedade inteira, tem gente que comete muita transfobia disfarçada de opinião, devemos respeitar mais as pessoas, estabelecer novas metas, novos preceitos e criarmos uma nova sociedade onde a “igualdade” prevaleceria acima de qualquer padrão. Precisamos contar nossas histórias, nos deixem viver e mostrar o quão humano somos, nos respeitem, respeitem nossos pronomes!

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