Um mártir da reforma agrária no Piauí

O historiador Francisco de Assis lembra história do assassinato de Chico Quem-Quer, de José de Freitas

Foto: Arquivo pessoalFrancisco de Assis Alves de Oliveira
Francisco de Assis Alves de Oliveira

Por Francisco de Assis Alves de Oliveira, historiador 

“A função do historiador é lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer” (Peter Burke). Partindo deste principio e de acordo com o meu pensar, a sociedade e especialmente as entidades de representação dos trabalhadores rurais não podem deixar relegados ao abandono, esquecidos, aqueles trabalhadores que tombaram nas lutas pela Reforma Agraria no Piauí, verdadeiros mártires. Este artigo tem por objetivo principal, um dentre outros. Inicialmente lembrar a sociedade frentense, e comunicar a piauiense um crime de encomenda, que a época chocou a população da cidade de José de Freitas-PI.

Francisco Cardoso de Macedo, mais conhecido como “Chico Quem-Quer”, natural de José de Freitas-PI foi um corajoso combatente que ofereceu a própria vida em favor da luta pela Reforma Agraria no Estado do Piauí. Sacrificou – se em nome de suas convicções, ou seja; o direito de permanecer na terra onde morava com a esposa e filhos.

Francisco Cardoso de Macedo (“Chico Quem – Quer”) lutou até a morte pela posse da terra onde residia há décadas. O que se dizia proprietário não aceitava sua permanência e exigia que se retirasse do lugar. Ele resistiu corajosamente. Procurou ajuda no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de José de Freitas-PI, que à época 1989, era presidido por um senhor de nome Francion. O sindicato se recusou a ajuda-lo. Diante deste fato – a recusa do sindicato em defender seu associado - é possível visualizar o sindicalismo marrom, pelego.

O alegado proprietário não se dava por vencido e em vez de requerer na justiça a posse da terra, tramou a morte do agricultor contratando um pistoleiro para tirar-lhe a vida.

No dia 22 de maio de 1989, quando retornava de uma missa que tradicionalmente era celebrada na Igreja de Nossa Senhora do Livramento, por ocasião do dia de Santa Rita, Chico Quem – Quer foi alvejado com um tiro mortal. Ele era cristão, católico de muita fé, devoto de Santa Rita. O atirador assassino armou uma emboscada, ficou de tocaia escondido dentro do mato próximo a um portão que existia na estrada que liga a sede da cidade de José de Freitas-PI ao povoado Ema. Naquele tempo existiam dois portões de ferro na estrada.

Todos que passavam na estrada tinham que parar para abrir o portão. O pistoleiro sabendo disso planejou tudo friamente. O assassino já tinha tentado outras vezes. Trabalhadores rurais andando pelo mato encontraram vestígios das tentativas fracassadas, ou seja; tocais no caminho da roça do senhor Francisco Cardoso de Macedo, Chico Quem-Quer.

Assim que chegou ao portão e desceu da bicicleta para abri-lo, surpreendeu-se com uma rajada de chumbos saídos do cano de uma espingarda. Foi morto numa tocaia covardemente. O bárbaro assassinato aconteceu no primeiro portão de quem sai da cidade de Jose de Freiras sentido povoado, trecho da estrada que se localiza dentro das terras do atual Assentamento Carimã; zona rural - José de Freitas-PI. Tratou-se de um crime de grande repercussão na cidade, comoveu toda a população. Mandante e assassino foram condenados e presos.

OBS: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do pensarpiaui.