Os dois: Papa Francisco e Lula

Gesto do Papa deve ser interpretado como uma categórica condenação dos responsáveis pela perseguição judicial implacável contra o ex-presidente

Foto: google imagensEncontro histórico entre o Papa Francisco e Lula
Encontro histórico entre o Papa Francisco e Lula

A audiência concedida pelo Papa Francisco ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Vaticano, nesta quinta-feira (13-2), tem um simbolismo muito forte, não apenas para o Brasil, mas para o planeta. E representou um duro contragolpe nas forças que derrubaram a ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016, elegeram Jair Bolsonaro presidente, em 2018, e continuam dando apoio e sustentação ao atual governo de extrema-direita. Ao convidar Lula e recebê-lo em Roma (Itália), o Papa emitiu mensagem clara ao neofascismo tupiniquim.

Líder da Igreja Católica Apostólica Romana, que galvaniza os corações e mentes de 1,3 bilhão de fiéis em todo o mundo, o Papa Francisco consolidou seu apoio a Lula e, ao fazê-lo, deu ao brasileiro um atestado de idoneidade moral incontestável. Para além do campo da ilação, o gesto do Papa deve ser interpretado como uma categórica condenação dos responsáveis pela perseguição judicial implacável contra o ex-presidente, acusado e sentenciado, sem provas, preso, politicamente, por 580 dias.

Todos sabem, a prisão decretada pelo então juiz federal Sérgio Moro tinha o objetivo de impedir a real possibilidade de uma nova reeleição de Lula à Presidência da República. Foi o segundo grande passo dado pelos golpistas, a serviço das elites econômicas e dos interesses dos EUA, no sentido de dominar o País e implantar um regime de viés antidemocrático, contra os trabalhadores e antisoberano. Essa narrativa é corroborada agora pelo encontro pessoal entre Francisco e Lula. E isso terá consequências muito sérias.

Destruição e desigualdade

As duas pautas essenciais, para o Brasil e o mundo, discutidas entre o Papa e o ex-presidente – a destruição do meio ambiente e o aprofundamento das desigualdades sociais e econômicas através, entre outros fatores, da supressão crescente dos direitos trabalhistas – deram a medida da importância do fato. Tanto, que nem mesmo o Jornal Nacional conseguiu ignorá-lo, apesar da costumeira ênfase difamatória sobre o caráter da suspeita sentença contra Lula.

Afirmando, em Roma, logo depois da reunião com o Papa, que “a ganância dos interesses empresariais e financeiros” é responsável pela revogação de conquistas dos trabalhadores e pelo aumento da desigualdade no mundo, Lula não falou apenas por si. Suas palavras eram as de Francisco. E denunciam algo gritante: o colapso iminente do sistema capitalista, de proporções apocalípticas, que concentra riquezas e gera bilhões e bilhões de pessoas lançadas à miséria social e existencial.

O ex-presidente, portanto, saiu dos aposentos papais muito mais fortalecido, com cada vez maior apoio e prestígio internacional, o que pode provocar abalos, no Brasil, no eixo político ora no poder. Provavelmente, alguém ligado ao governo Bolsonaro – senão o próprio – irá se pronunciar sobre o ocorrido, pra variar, com a velha verborragia estúpida e odiosa que lhe é peculiar, talvez dizendo coisas do tipo “o Papa comunista prestigiou o bandido”. A mensagem de Francisco foi muito dura contra a situação atual do País.