Na escuridão da dança nossos corpos estavam iguais, nem homem, nem mulher, nem negra, nem branco, nem nada, era só a dança

Na escuridão da dança nossos corpos estavam iguais, nem homem, nem mulher, nem negra, nem branco, nem nada, era só a dança


Por Luzia Amélia, publicado ontem em seu facebook
Hoje - Dia Internacional da Dança - eu desejo abraçar todos os meus pares e impares que estão, assim como eu, nesse longo e instigante processo da dança. Me permitam olhar mais um vez para o passado, geralmente me inspira: certa vez, estava em um debate sobre Dança Contemporânea em Teresina e um renomado coreógrafo piauiense conhecido internacionalmente por obras politicamente corretas, me disse com força a seguinte frase: "fica na tua, porque se não eu vou te chamar de CABELO RUIM". Foi forte.
Eu lembro que me calei, talvez pela amplitude da agressão, pela força da fala de um homem, artista, branco, rodeado de pessoas que assim como eu, são minorias. Não sei, eu simplesmente me calei. Voltei para casa pensando que a minha presença e ação na dança do Piauí não seria jamais apenas sobre eu mesma. Eu vi que era irreversível a minha ação na Dança, entendi que a Dança que eu deveria dançar seria uma Dança militância. Eu jamais poderia "ficar na minha"! Eu tive pena dele, porque dentro de suas convicções de homem, branco, gay, artista, ele não estava sabendo lidar com a minha presença de uma dança/fala que incomoda.

Não sei porque isso me veio hoje, na verdade não tenho raiva dele não, ao contrário, eu até agradeço. Depois eu dancei com ele um trabalho lindo, onde ele era a minha sombra. Era um trabalho que acontecia na escuridão. E nessa escuridão nossos corpos estavam iguais, nem homem, nem mulher, nem negra, nem branco, nem nada, era só a dança. Acho que ele entendeu finalmente que mulheres como eu jamais ficarão "na sua".

Daqui de Salvador onde eu faço o meu doutorado em Dança, saúdo todos aqueles que dançam e jamais ficaram em lugares definidos por outras pessoas. Jamais!
A dança é o que me faz atravessar o silencio.