Esquerda, direita, centro, identitários: as eleições na visão de Rudá Ricci

O cientista social fez uma profunda análise sobre a eleição do primeiro turno e seus impactos sociais

Foto: You TubeRudá Ricci
Rudá Ricci

A entrevista a seguir foi gravada na sexta-feira (20). Foi com o cientista político Rudá Ricci que fez uma análise do resultado das eleições 2020, mas a entrevista não ficou só nisso. Ricci abordou diversos temas interessantes da política brasileira. Veja um resumo aqui e assista a entrevista a seguir.

ELEIÇÕES 2020

Na visão de Ruda Ricci a eleição deste ano trouxe duas surpresas: 1) presença do bolsonarismo no Nordeste brasileiro, e 2) a ida de Guilherme Boulos ao segundo turno da eleição paulistana 

Ainda segundo Ricci, a eleição nos apresenta 2 “Brasis”: 1) Nos municípios com menos de 200 mil habitantes, venceu a centro direita: DEM Progressitas,  PSD, Republicanos e 2) nos municípios com mais de 200 mil habitantes: ganhou PT, MDB, PSDB

No fundo Ricci não vê grandes mudanças na composição política brasileira mas ele destaca que 55% dos brasileiros moram nas 100 maiores cidades do Brasil (com mais de 200 mil habitantes)

Ele vê a presença de Boulos no segundo turno de SP como importante e isso pode cacifar o PSOL para o futuro. Neste momento, Rudá Ricci fala especificamente sobre o poderio de SP: “Mas de onde vem este SP gigante? De um pacto feito por Getúlio Vargas quando da Revolução de 1932. Apesar de perder a guerra, São Paulo obteve de Getúlio Vargas a garantia de que a industrialização do Brasil seria a partir daquele estado. São Paulo a partir daí, torna-se mais ainda, a elite dos investimentos nacionais, e adquire o desenvolvimento atual”.  

ALEXANDRE KALIL

Alexandre Kalil (PSD) é o prefeito de Belo Horizonte e domingo passado foi reeleito com impressionantes 63,36% dos votos. Apesar de paulista, Rudá Ricci está radicado em Minas Gerais há muitos anos e, portanto, foi indagado da performance eleitoral do gestor de BH. Entre outras coisas sobre Kalil ele disse: “Tem sonhos, e mostrou-se competente. A esquerda e o centro estão juntos em seu governo. Ele faz composição assim como Tancredo fazia e trabalha para ser um novo JK”.

ROMEU ZEMA

Sobre o governador de Minas Gerais, que não elegeu nenhum prefeito domingo passado, ele disse: “O mineiro elege alguém e depois cristianiza. Foi assim com Aécio Neves, Anastasia e Fernando Pimentel. Agora é o Zema. Empresário não sabe governar. Ele se perdeu. Faz um péssimo governo.”

ESQUERDA     

“O PT, PCdoB, PSB e PDT constituem partidos que se preocupam com a pauta social mas a partir do mercado, ou seja, eles não rompem com o mercado. Portanto não são de esquerda. O PSOL está muito próximo deste bloco aí. O programa do Boulos para presidente e, agora, para prefeito, são programas social-democrata. Mas o Boulos tem um vínculo com o movimento social que o faz mais radical com relação às grandes fortunas, aos investimentos para a periferia, por exemplo.  A centro esquerda perdeu o eixo. Do ponto de vista programático se tornou liberal. Do ponto de vista da organização ela se desvinculou das lutas sociais cotidianas. No Brasil não temos a extrema-esquerda. PCO e PSTU são a esquerda clássica, porém não tem votos (menos de 1%). Para onde vai o PSOL? Para responder isso, precisa entender seus agrupamentos internos. O bloco do Ivan Valente é o maior, portanto, tem ganhado as disputas. Ele que trouxe a Erundina e Boulos com o apoio do Freixo. A Luciana Genro domina o segundo grupo do partido (que é equivalente ao PSTU) mas foi derrotada internamente. E tem os identitários. Esses estão elegendo muita gente, mas não mandam no PSOL.”

IDENTITARISMO

O cientista social Ruda Ricci abordou especificamente o tema do “Identitarismo” e suas implicações na política. Segundo ele, “o século XX foi o da identidade coletiva, das multidões. O macacão do operário dava identidade. A cesta de natal do final de ano, dava identidade. O século XXI é o da fragmentação. Por exemplo, nos EUA os sindicatos agora se organizam por local de moradia, não é mais na fábrica. Se organizam por etnia. Como fragmentou, a identidade vem pelo grupo mais próximo, mais afetivo. A pauta de luta étnica por direito à igualdade étnica ou de gênero e assim por diante, são pauta clássicas da esquerda. É classe social. No PT antes tinha isso em suas direções. Hoje é só branco, de cabelos brancos e deputado federal que manda.  A Benedita aparece como candidata mas ela não manda nada. Quem manda lá é o Quaqua, dirigente do PT no Rio de Janeiro. Tem uns que acreditaram no Partido e se organizaram por dentro deles. Mas tem um monte de gente que não acreditou em Partido e foram para coletivos identitários. Identitário é uma palavra que tem origem na extrema direita da Europa nos anos 80. Ela nasceu se contrapondo aos imigrantes. ‘Eu tenho identidade porque sou nativo’. Identidade com território.  Os EUA puxam esse conceito para as fundações empresariais. Aí vem cursos para mulheres negras, as fundações financiam pesquisas sobre o assunto e surge um novo feminismo, um novo antirracismo. O que é esse novo?  É um que não é de esquerda.Não respeita o conceito de classe social. Biologiza a política. Troca o discurso da humanidade e da justiça social pelo estético. Um autor americano diz que ‘os identitários não querem mudança social, eles querem entrar no mercado, por isso lutam por reserva de mercado’.” E sobre este debate finaliza com esta impactante frase: “essa história de lugar de fala é carteirada".

FREIXO X HADDAD

Em 2019, Fernando Haddad e Marcelo Freixo eram cotados como importantes nomes nas disputas municipais deste ano. Na hora “H” essas duas expressões do PT e do PSOL ficaram de fora das eleições. Ricci também falou sobre isso: “O Freixo cometeu um erro grosseiro. Quis formar uma frente começando com a imposição do nome da cabeça de chapa que seria ele mesmo. Já o Fernando Haddad é um péssimo candidato. Foi Lula quem elegeu ele prefeito. Ele é um almofadinha, não tem apelo de massas, a pauta dele é liberal.”

Acompanhe a integra da entrevista: