Capitólio: houve negligência ou foi acidente?

Para morador, turismo predatório causa triste cenário em Capitólio, com despreparo de autoridades, operadores de passeios e de visitantes

Foto: EMQueda de pedra

Relatos e imagens que circulam pelas redes sociais apontam para uma negligência generalizada em torno da tragédia de Capitólio, cidade turística do sul de Minas Gerais, na manhã de ontem. O desabamento de rochas de um cânion no Lago de Furnas atingiu duas embarcações em cheio e outras duas também sofreram impactos. No total, havia 34 pessoas nessas quatro lanchas. Mas não havia nenhuma placa indicando riscos no local. Apesar da confirmação de sete mortes até o momento, o Movimento de Atingidos por Barragens teme que o número ainda possa subir.

Em vídeos de internet, é possível ver o momento do principal desabamento. E, antes, o desespero de pessoas que viam de longe fragmentos de rochas despencarem antes da queda derradeira. Enquanto turistas gritavam para que os barcos que estavam próximos se afastassem, é possível notar que o maior deles demorou a se dar conta da tragédia iminente.

Veja os vídeo aqui: Novos vídeos mostram desespero e queda de rocha em Capitólio-MG

Turismo predatório

O tenente Pedro Aihara, porta-voz do Corpo de Bombeiros no estado, afirma que havia entre 70 e 100 pessoas nos arredores em outras embarcações próximas ao ponto do acidente, antes do isolamento da área atingida. Mais de 30 pessoas se feriram.

Os bombeiros desconfiam que o deslizamento teria ocorrido após uma tromba d’água. Na manhã deste sábado, a Defesa Civil do Estado de Minas Gerais emitiu alerta para chuvas intensas na região do desastre. Inclusive justamente com possibilidade da chamada cabeça d’água.

Em nota, a Marinha do Brasil informou que vai instaurar inquérito para apurar as causas do acidente. “A DelFurnas deslocou, imediatamente, equipes de Busca e Salvamento (SAR) para o local, integrantes da Operação Verão ora em andamento, a fim de prestar o apoio necessário às tripulações envolvidas no acidente, no transporte de feridos para a Santa Casa de Capitólio, e no auxílio aos outros órgãos atuando no local”, diz a nota.

É o terceiro ano seguido que o Lago de Furnas, em Capitólio, registra tragédias. No ano passado, as fortes chuvas causaram enchentes e estragos na região. No ano anterior, uma lancha atingiu um jet ski. “Está muito muito triste a situação de Capitólio. Pois a cidade está sendo tomada por um turismo predatório e o despreparo – de autoridades públicas, operadores de passeios e dos próprios visitantes – é generalizado. Ninguém se preocupa, só pensa em ganhar dinheiro”, diz um morador da região que tinha um familiar operando uma embarcação que não foi atingida.

Veja a postagem do jornalista Álvaro Nascimento no facebook:

Capitólio: não foi "acidente"

Anos atrás fui ao sul da França, numa viagem curta com meu filho e minha nora. Depois de assistirmos a um festival de jazz em Carcassone, viajamos a Nimes e de lá decidimos passar um dia ensolarado em Cassis, no litoral, onde um dos baratos é pegar um barco (há dezenas deles) para visitar os famosos calanques, espécie de cânions, que na verdade são grandes penhascos que se abrem em enormes grutas banhadas por um mar cristalino de um azul impressionante. Os calanques são uma verdadeira obra de arte da natureza (foto anexa).

Era um dia de sol forte, céu azul, praia cheia e logo que chegamos fomos atrás de um barco que nos levasse aos calanques. No cais, a decepção. Nenhum barco poderia sair naquele dia. Estranhamos, claro, pois a cidade estava cheia de turistas, estrangeiros e franceses de férias, o dia estava lindo, céu azul, sem nuvens, o mar calmo com ondinhas de no máximo um metro na arrebentação. Mas os barcos não iam sair "à cause du vent" (por causa do vento). Nós três nos entreolhamos, rindo, nos perguntando: "Vento? Que vento?". Realmente era uma brisa de média pressão, apenas, que para nós não justificaria a proibição. Mas nos explicaram que se houvesse uma rápida elevação do vento, ela poderia jogar um barco contra as rochas, causando um acidente mais sério. Então, ninguém poderia se aproximar dos calanques naquele dia. Batemos os ombros, conformados, e fomos para a praia, passeamos pela cidade e no final do dia retornamos a Nimes.

Por que conto esta história? O Instituto de Meteorologia está há dias informando que haveria a incidência de fortes chuvas em Minas Gerais, citando inclusive a região de Capitólio. Os alertas meteorológicos não foram poucos.

Depois do que ocorreu neste final da manhã, resultando em sete mortos (até agora), quatro desaparecidos e mais de 30 feridos, além das perdas materiais e econômicas momentâneas e futuras, o porta-voz do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, o tenente Pedro Aihara, declarou que o "acidente" ocorreu por causa de uma “cabeça d’água”:

- É um local que tem um tipo de rocha mais suscetível a processos erosivos e de intempéries. Como a gente tem chuvas muito intensas neste mês, aparentemente teve uma aceleração considerável desse processo erosivo, que acabou gerando o desprendimento dessa rocha, explicou.

Já a Marinha do Brasil informou que um inquérito será aberto para investigar "as causas do acidente". Aposto um mês de meu salário como a Marinha concluirá que a culpa é da natureza.

Resumindo:

1. O Instituto de Meteorologia informa há dias a incidência de chuvas fortes e acima do normal na região. Isto foi reafirmado ontem, véspera do que, segundo os bombeiros, foi um "acidente";

2. Sabidamente, aquele ponto do Lago de Furnas recebe a vazão de vários rios, que ali se transformam em cachoeiras;

3. Com chuvas fortes como as previstas há dias, a possibilidade da ocorrência de "cabeças d´água" cresce enormemente;

4. O local exato (cânions tipo calanques) onde estavam estacionados os barcos mineiros, segundo os próprios bombeiros "tem um tipo de rocha mais suscetível a processos erosivos e de intempéries", propensos em momentos de chuvas mais fortes a uma aceleração considerável de um "processo erosivo".

Assim que vi os barcos de Minas Gerais sendo apanhados pelo rochedo que se desprendeu, me veio à mente aquele dia de sol, céu azul, uma leve brisa em Cassis e a proibição de saída dos barcos, devido apenas à possibilidade dos ventos virem a aumentar.

A pergunta é: dá para chamar de "acidente" o que ocorreu hoje em Capitólio?