A destruição da agricultura familiar está a caminho

0,05% dos proprietários rurais possui 15% das terras do Brasil, enquanto 50% dos pequenos têm a posse de apenas 2% das terras agricultáveis.

Foto: google imagensAgricultura familiar, que alimenta a população, pode ser destruída
Agricultura familiar, que alimenta a população, pode ser destruída

A denúncia do economista carioca Eduardo Moreira, um dos mais prestigiados do Brasil, sobre o processo de destruição da agricultura familiar, chama a atenção da sociedade para um grave problema estrutural em nosso País. Com muita propriedade, o economista denunciou que o poderoso agronegócio está conseguindo fazer com que o governo federal adote políticas e medidas para favorecer os ruralistas, em detrimento dos pequenos agricultores, que é quem gera empregos no campo e alimenta a população brasileira.

Essa política teve início no governo Temer e tem sido levada a cabo, com intensidade cada vez maior, pelo governo Bolsonaro, e se baseia em quatro pilares. Um deles se refere à elevação do dólar ou desvalorização do real, o que beneficia os grandes latifúndios, a cada dia mais extensos e produtivos, baseados em monocultura, e voltados progressivamente para a exportação, paga em dólar, no mercado internacional. Então, é natural que o mercado interno se torne menos interessante.

Com o real desvalorizado, a lucratividade da comercialização da produção agrícola, no mercado interno, se torna menor, causando redução da oferta e, portanto, o aumento do preço do alimento que vai à mesa da população. Esse fenômeno é bem ilustrado pelo que ocorre com a carne, cujo valor repassado diretamente ao consumidor interno cresceu de forma poucas vezes vista, tendo o maior aumento mensal em 10 anos, e não deve ficar mais barata, a curto ou médio prazo.

Distorções graves

Mas a denúncia do economista vai além e aponta distorções socioeconômicas graves no que se refere à concentração das riquezas no campo, já que menos de 1% dos proprietários de terra tem cerca de 50% das terras cultiváveis, algo de fato assombroso. Ainda segundo Moreira, 0,05% dos proprietários rurais possui 15% das terras do Brasil, enquanto 50% dos pequenos têm a posse de apenas 2% das terras agricultáveis e, ao longo de 10 anos, reduziram a área cultivada da agricultura familiar em 20%.

No mesmo período, o grande agronegócio ampliou em mais de 45% a área destinada à produção de grãos e outros alimentos, exclusivamente exportados, com lucratividade dolarizada. O País deixa de estimular a agricultura familiar para produzir ração para porcos e outros animais em nações como a China e os EUA, óleo de cozinha, para a Europa, etc., com isenção total de impostos, na exportação, e devolução dos tributos pagos na importação de insumos – maquinário, agrotóxicos, etc.

Como a agricultura familiar é voltada quase que exclusivamente ao mercado interno – e é tributada por isso –, fica em desvantagem, que se torna ainda nociva, porque o governo está enfraquecendo seus programas de compra de alimentos produzidos pelos pequenos. Isso os asfixia financeiramente, pois perdem importante comprador, o que ameaça o sustento de muita gente, pois a agricultura familiar emprega ⅔ de todos os trabalhadores rurais. É um pacote que só favorece o agronegócio e só desfavorece a agricultura familiar.