A compra de votos na reforma da previdência

Áudio de uma conversa da deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) revela que o governo pagou milhões a cada deputado

Foto: google imagensCarla Zambelli é flagrada em áudio sobre a compra de voto na reforma
A deputada Carla Zambelli é flagrada em áudio sobre a compra de voto na reforma da previdência

O vazamento do áudio de uma conversa da deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), na qual ela confessa que o governo Bolsonaro pagou milhões a mais, em emendas parlamentares, para cada deputado que votou a favor da reforma da previdência. Esse é um dos temas da semana, ao lado do escandaloso esquema de corrupção envolvendo o chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom), Fábio Wajngarten, e da horripilante propaganda nazista feita pelo então secretário especial de Cultura, Roberto Alvim.

Assim tem sido feito o governo, capaz de produzir um novo escândalo a cada semana. No caso, foram três seguidos, na mesma semana, e o primeiro mês de 2020, o segundo ano do mandato do presidente, está longe de terminar. Pode se dizer assim que o governo começou no mesmo padrão de 2019: muito mal, sobretudo para o País, porque, do ponto de vista do Palácio do Planalto, está tudo muito bem, enquanto os bolsonaristas continuarem aplaudindo tudo o que acontece de errado, antidemocrático e prejudicial à população e sociedade.

O episódio envolvendo Carla Zambelli, portanto, implica no fortalecimento das suspeitas de que o discurso anticorrupção, que fez parte do contexto no qual Bolsonaro foi eleito, é uma balela. Isso sem mencionar as investigações sobre o inexplicável enriquecimento patrimonial do clã, totalmente incompatível com os rendimentos do presidente e seus três filhos políticos, as suspeitas de envolvimento com as milícias, etc. Como é do conhecimento público, só o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) é acusado de praticar as “rachadinhas” e tal.

40 anos de contribuição

Em áudio divulgado pela deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP), em sua conta no Twitter, Carla Zambelli conversa com o secretário municipal de São Carlos (SP), Marcos Palermo, sobre o esquema de compra de votos para aprovar a reforma que estabelece 40 anos de contribuição para receber a aposentadoria integral. Recapitulando os fatos, a reforma da previdência foi aprovada muito rapidamente pelo Congresso Nacional, em 2019 – primeiro na Câmara dos Deputados e posteriormente no Senado Federal, sem discussão com a sociedade.

A lei promulgada, como resultado de algum senso de prudência dos parlamentares que a aprovaram – especialmente os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre – ficou aquém dos objetivos do governo que a propôs. A proposta original do ministro da Economia, Paulo Guedes, era muito mais perversa do que a lei efetivamente resultante da tramitação relâmpago e aprovação do Congresso, e previa inclusive o fim do sistema de previdência social, nos moldes em que foi definido na Constituição Federal de 1988.

Segundo Carla Zambelli, “então, todos os deputados que votaram a favor da reforma da previdência tiveram alguma verba que poderiam tirar de alguns ministérios para poder mandar para alguma cidade”. São palavras textuais, ipsis literis, da parlamentar bolsonarista. À época, o governo teria prometido R$ 20 milhões para cada deputado que votasse na reforma, além dos R$ 15,4 milhões que têm direito em emendas individuais. O que é isso senão compra de votos? Onde está o discurso anticorrupção falso-moralista dos bolsonaristas?