Jornalista

Odorico Carvalho

Jornalista

Um homem, sem falar, prometer nem pedir, sem gestos espetaculares, arrebatou almas de forma inquietante

Foto: Douglas DocelinoEnfermos de todo tipo engrossavam as procissões diárias para seguir o Velhinho
Enfermos de todo tipo engrossavam as procissões diárias para seguir o Velhinho

Nos anos 80, algo inusitado aconteceu na região de Picos. Na BR-316, lá pros lados da cidade de Monsenhor Hipólito, apareceu uma figura estranha a caminhar na pista na direção de Teresina. Era um homem alto, magro, barba e cabelos longos, vestia-se com uma bata branca que lhe descia até os pés nos quais arrastava sandálias de couro de boi já bem gastas pelo tempo e, ao que parece, pela longa jornada. Ele tinha feições etéreas, enigmáticas; às vezes ficava carrancudo, noutras seu olhar transmitia confiança e paz indecifráveis.

Movia-se sem nenhuma pressa como se soubesse que “devagar se vai ao longe”. Não mudava de direção, não entrava em veredas, não batia nas casas à beira da estrada nem para pedir água. Quando o sol escaldante do semiárido nordestino lhe incomodava a moleira, ele parava na sombra de uma árvore qualquer e aguardava melhor momento para prosseguir. 

As pessoas que passavam, de carro e outros meios de transporte, ficavam intrigadas com aquele ser. Quando alguma alma caridosa parava e lhe oferecia carona, o Velho dispensava a gentileza de imediato, com um simples gesto. Não falava uma palavra, não respondia perguntas, nem sorria para ninguém. 

Logo, as pessoas das redondezas começaram a lhe levar alimentos, frutas, água, etc.  Ele não aceitava comidas sólidas, apenas sopas, caldos. Recebia de bom grado, mas não demonstrava avidez por qualquer alimento, comia como se fosse uma mera obrigação que tinha com o próprio corpo.

O caso se espalhou rapidamente pelas cidades da região e virou o principal assunto das conversas nas praças, nas portas das residências, nos comércios. Todos queriam entender aquele mistério e procuravam saber de cada passo do Velhinho da Estrada. Muitos não aguentavam esperar saber as notícias nas rodas de amigos e começaram a ir, in loco, descobrir o que estava acontecendo. Em pouco tempo, já havia verdadeiras romarias todo fim de tarde. Moradores de vários municípios iam chegando em seus carros, motos, cavalos, a pé, e ficavam por uma, duas horas, a caminhar em procissão com o Velho. Ele não parecia se importar com toda aquela movimentação. Não aprovava nem desaprovava, seguia seu caminho predeterminado de forma impávida e silenciosa.

As especulações surgiam aos borbotões, algumas até estapafúrdias: seria aquele homem o Cristo redivivo testando seu poder nas terríveis condições do seco Nordeste? Aguentaria quarenta dias de tortura sob o sol tórrido? Ou seria ele algum ET deixado para trás por naves alienígenas? Um olheiro de outras civilizações?

Daí a surgir o primeiro relato de um milagre realizado foi um passo só. Uma velha beata anunciou a cura de um mal antigo e persistente para o qual nossa medicina de nada lhe servira e atribuía tal milagre aos fervorosos pedidos que fizera aos pés do Velho. O alvoroço aumentou em toda a região e agora enfermos de todo tipo engrossavam as procissões diárias, onde rezas, emoção e lágrimas eram constantes.

Com o crescimento de notícias de curas milagrosas, até os céticos e incrédulos iam à presença do Velho santo em busca de algum alívio para suas mazelas, afinal não custava nada arriscar. Dizem – mas não posso confirmar, pois nunca fui lá – que até alguns médicos da região, portadores de doenças que não souberam tratar, chegavam lá no fim das tardes, envergonhados, e se postavam de joelhos diante daquela imponente figura. Se a fé remove montanhas, quem sabe ali não achariam a cura que nem o estudo motivado pelo interesse próprio conseguira?

E o comboio continuava e crescia. Velhos, jovens, crianças. As velhas corolas e papa-hóstias iam na frente entoando hinos, as cabeças cobertas por véus brancos, no meio seguia o Velho, impassível como se nada daquilo fosse com ele. Já haviam passado da entrada de Francisco Santos, já se avistava o acesso para Santo Antônio de Lisboa e, naquele passo, mais uns cinco dias e seria a entrada triunfal em Picos.

Ninguém tinha dúvidas de que a chegada a Picos seria um acontecimento espetacular, a se julgar pelo clamor que agitava a cidade. Certamente, haveria uma recepção digna da fama angariada em poucos dias pelo poderoso Visitante. Fogos, carros de som, falatório de políticos, atos ecumênicos para marcar aquela data na história. 

O rebuliço ultrapassou as fronteiras da região e chegou à capital Teresina. Jornalistas são bichos curiosos – sabemos nós –, e eles não se conformaram em apenas “ouvir dizer” e se deslocaram para Picos para cobrir o evento. Longas matérias, fotos, relatos detalhados dos muitos milagres, opiniões de religiosos contra e a favor, até editoriais questionando a fé cega do povo, classificada pejorativamente de “crendice popular”. 

Às vésperas do grande encontro do Velhinho com a gloriosa cidade de Picos, novamente algo aconteceu. No horizonte, em alta velocidade e sem qualquer aviso, surgiu uma ambulância com a luzes acesas piscando e sirene aos berros. Diminuíram a velocidade ao chegar perto da multidão e seguiram até bem próximo do Velho. Ali, quatro homens vestidos com batas brancas desceram e cercaram o Ancião que, impávido, não moveu um músculo. Em seguida, sem darem respostas à população, colocaram-no no carro e partiram. As pessoas, atônitas, olhavam-se e se abraçavam, choravam copiosamente. O que foi aquilo? O que aconteceu? Para onde Ele foi? 

Soube-se depois – mas não sei se é verdade – que diante das fotos nos jornais, as equipes do Hospital Psiquiátrico Meduna - ou Areolino de Abreu, não sei – reconheceram o Velhinho como um de seus pacientes desaparecido há alguns dias. Supõe-se que ele, ao fugir, conseguiu carona com algum caminhoneiro, viajou 350 quilômetros e foi deixado à beira da estrada. 

Seja qual for a verdade, o certo é que o Homem, sem falar, sem prometer nem pedir nada, sem gestos espetaculares, conseguiu arrebatar almas e corações de forma simplesmente inquietante. Quantos na história da humanidade já foram torturados, tidos como loucos e assassinados por serem capazes de proezas que outros nem sonhavam em tentar? Se hoje, tanto tempo depois, ainda me lembro dessa história, é sinal de que algo nele mexeu com a sensibilidade de muita gente. Anjo? Quem sabe? Louco? Talvez. Mas o fato é que sua história ainda vive.

OBS: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do pensarpiaui.


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