Sociólogo, Professor aposentado da UFPI

Antonio José Medeiros

Sociólogo, Professor aposentado da UFPI

A tarefa de Lula é maior que a do PT… e ele sabe disso

Foto: Ricardo StuckertLula
Lula

 

Evento grande e bonito o do Lula no Piauí, semana passada; talvez o maior do Brasil nessa pré-campanha, até agora. 

Não vou falar do evento; nem principalmente do Lula. Mas da tarefa dele próprio e nossa no momento que vivemos no Brasil.

Geralmente, tempos de campanha eleitoral são tempos de retórica, agressões, propostas, promessas, gozações, estatísticas e agora dos tais fakenews. A (pré)campanha de 2022 está tendo e continuará a ter tudo isso. 

Mas não é difícil perceber a grande diferença. Em 2022, não está em jogo apenas a disputa entre candidatos e partidos-federações-coligações, sobretudo em torno da presidência da república. Não é “normal” uma eleição onde um dos candidatos questiona o processo eleitoral e diz que não aceita o resultado (se for contra ele, é claro). Mais: é politicamente “anormal” porque antidemocrático, um candidato ameaçar dar um golpe antes ou depois do dia da manifestação popular nas urnas.

Eis o essencial no Brasil hoje: voltar à normalidade democrática como valor básico de nossa convivência política. Essa convivência passa pela lei, pelas instituições (órgãos públicos responsáveis por cada área), pela denúncia e combate ao que se acha errado, pelo debate entre situação e oposição e pelo respeito aos mecanismos de solução dos conflitos; enfim, pela defesa do que, no mundo todo, se considera modernidade ou mesmo civilização.

A construção de uma frente de diferentes forças políticas é a dimensão eleitoral do que o Brasil precisa. O Lula, por ser uma referência de massa e por seu talento de negociador conseguiu fazer avançar esse processo para contrapor-se à mobilização de direita e apontar uma alternativa viável. 

O envolvimento de diferentes setores da sociedade, organizados ou não, é a dimensão político-social-cultural que dá uma sustentação mais sólida e um sentido maior à campanha eleitoral de todos os candidatos democratas. E terá consequências não só na composição de um próximo governo, mas nas políticas públicas que serão implementadas. Lula tem demonstrado ter clareza dos limites e das tarefas de transição do próximo governo.

As últimas manifestações através de Cartas em Defesa da Democracia apontam para a necessária mobilização da sociedade civil. Diversos candidatos a Presidente assinaram a carta. O movimento precisa se ampliar a ganhar as ruas.

E o Piauí? Apesar de uma ampla coligação em torno da candidatura a Presidente e a Governador e da tentativa de esconder Bolsonaro pelas forças políticas ligadas a ele, não apareceu ainda a manifestação significativa da sociedade civil organizada. É uma tarefa desafiadora pois deve combinar disputa eleitoral com convergência em torno da defesa da Democracia.

A forças de esquerda precisam ter essa clareza. O próximo governo é sobretudo um governo de retomada da redemocratização de 1985 e da ordem constitucional de 1988. Evidentemente, com Lula e o PT ocupando a chefia do Executivo, o governo assumirá um caráter de centro-esquerda, com a retomada das políticas sociais e culturais e de proteção de direitos dos trabalhadores.

E na medida em que a “política de ódio” e a “disputa entre inimigos” voltar a ser uma disputa democrática entre adversários, vamos avançar. Fortalecer os Sistemas Nacionais de Políticas Públicas, (educação, saúde, promoção social, segurança, política agrária e de abastecimento), envolvendo mecanismos permanentes de articulação entre União-Estados-Municípios. Implementar uma política tributária que seja distributiva e justa, considerando não só a questão federativa, mas o estímulo à produção e a proporcionalidade social dos encargos. Reequacionar as políticas ambientais, desde a questão amazônica até as práticas de saneamento e proteção das fontes de água em nível local e regional e avançando na nova composição da nossa matriz energética.

A presença de Bolsonaro na presidência abriu espaço e incentivou a formação de um movimento de direita no Brasil. Continuará tendo presença em nossa vida política; assim está acontecendo no mundo todo. Trata-se de enfrentá-lo política e ideologicamente.

A maior parte desse movimento é de massa, sem organicidade e sem elaboração ideológica; tem como campo de atuação as redes sociais, encaminhando mensagens pré-elaboradas. Os setores minoritários mais ideologizados perceberam a incapacidade do núcleo familiar bolsonarista de elaboração e organização (não quiseram registrar a Aliança Brasil como artido). E lhes falta coerência ou seriedade; o fisiologismo da aliança com o Centrão mostrou a inconsistência do movimento. Nessas circunstâncias, sem a presidência, dificilmente terá presença forte. 

As eleições são uma retomada. O Brasil não pode esperar mais. Incorporar-se com autonomia no compasso da historia contemporânea.
 

OBS: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do pensarpiaui.

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