Trump vai recuar ainda mais: Brasil será chamado para negociar
Apesar do argumento econômico, autoridades brasileiras enxergam um componente político central nas medidas adotadas pela administração Trump.
O Brasil deverá ser convocado nas próximas semanas para iniciar negociações com o governo dos Estados Unidos sobre a sobretaxa de 50% imposta a produtos brasileiros. No entanto, as tratativas ainda não têm data definida, e o país ocupa as últimas posições na fila de negociação. A informação foi confirmada por empresários norte-americanos com interlocução na Casa Branca, segundo apuração do Estadão/Broadcast.
Embora seja um dos países mais impactados pelas tarifas — atrás apenas da China —, o Brasil ficou em segundo plano por ter registrado déficit comercial com os EUA. Em 2024, o saldo negativo foi de US$ 253 milhões, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Washington tem priorizado países com superávit nas negociações, como União Europeia, Japão e Indonésia.
Pressão política
Apesar do argumento econômico, autoridades brasileiras enxergam um componente político central nas medidas adotadas pela administração Trump. A percepção foi intensificada pela nova ordem executiva publicada na quinta-feira (31), na qual o presidente norte-americano condiciona uma eventual revisão das tarifas à adoção de medidas do governo brasileiro contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes.
No decreto, Trump afirma que há uma "emergência nacional" no Brasil, acusa Moraes de "abuso de autoridade judicial" e denuncia uma suposta "perseguição política" ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo o republicano, essas ações ameaçariam a segurança nacional e os interesses estratégicos dos Estados Unidos.
Reação cautelosa
A exigência de alinhamento político pegou o governo brasileiro de surpresa. No Palácio do Planalto, o gesto foi interpretado como uma tentativa de ingerência sem precedentes. Embora a publicação de uma lista de exceções com 694 produtos — também divulgada na quinta-feira — tenha sido vista como um possível sinal de flexibilização, a avaliação predominante é de que o governo americano tem atuado de forma unilateral e imprevisível.
“Ainda não há o que comemorar”, afirmou um negociador brasileiro envolvido nas conversas. Segundo ele, até agora todas as decisões foram tomadas pelos EUA sem qualquer diálogo prévio, o que alimenta a preocupação com novas medidas tomadas de forma abrupta.
A lista de exceções, por sua vez, foi recebida com estranheza por integrantes da equipe econômica, que esperavam discutir os detalhes da medida — incluindo alíquotas e prazos — antes da entrada em vigor do tarifaço, prevista para esta sexta-feira (1º).
Avanços diplomáticos
Apesar dos entraves, o governo brasileiro considera positivas algumas iniciativas em curso. Entre elas, destacam-se as teleconferências conduzidas pelo vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Geraldo Alckmin, a recente visita de senadores brasileiros a Washington e o encontro do chanceler Mauro Vieira com o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio.
A expectativa é de que o Brasil seja chamado formalmente para as negociações em breve, mesmo diante das tensões políticas e da incerteza sobre uma possível revisão das tarifas.
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