Política

Presidente do Congresso "inimigo do povo", não quer que chamem o Congresso de "inimigo do povo"

Davi Alcolumbre rejeita tal rótulo mas histórico de controvérsias amplia desgaste político


IA Presidente do Congresso "inimigo do povo", não quer que chamem o Congresso de "inimigo do povo"
Presidente do Congresso "inimigo do povo", não que chamem o Congresso de "inimigo do povo"

O presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União-AP), reagiu nesta semana às críticas dirigidas ao Congresso Nacional e afirmou que não aceitará que o Parlamento seja tratado como "inimigo do povo". Durante discurso no plenário, o senador declarou que há autoridades da República estimulando ataques ao Legislativo e criticou a pressão para que determinadas propostas sejam votadas no ritmo desejado pelo governo.

A fala ocorre em meio ao acirramento das relações entre o Palácio do Planalto e o comando do Senado. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobra o avanço de pautas consideradas prioritárias, enquanto Alcolumbre sustenta que cabe ao Senado definir seu próprio calendário de votações e respeitar o rito constitucional das propostas.

No discurso, o presidente da Casa afirmou que conhece a origem das críticas e disse que não considera "normal" os ataques dirigidos à sua atuação. Também afirmou que o Congresso não pode ser transformado em alvo de campanhas que busquem deslegitimar o Poder Legislativo perante a população.

Entretanto, a defesa feita por Alcolumbre encontra resistência entre setores da política e da sociedade. Embora o senador afirme que o Parlamento não pode ser tratado como "inimigo do povo", seus críticos argumentam que parte do desgaste da imagem do Congresso decorre justamente da atuação de lideranças políticas que utilizam o controle da pauta legislativa como instrumento de negociação e pressão sobre o Poder Executivo.

A declaração também reacendeu debates sobre o histórico de controvérsias envolvendo o atual presidente do Senado, que ao longo dos últimos anos foi alvo de investigações, reportagens e críticas relacionadas à sua atuação política. Alcolumbre nega todas as acusações e afirma ser vítima de ataques políticos destinados a enfraquecer sua imagem e a autonomia do Legislativo.

Reportagem da Veja citou proposta de delação envolvendo Banco Master

Um dos episódios mais recentes ocorreu em 2026, quando reportagens da revista Veja informaram que uma proposta de acordo de delação premiada apresentada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro — e posteriormente rejeitada pela Polícia Federal — mencionava um suposto pagamento de 30 milhões de dólares ao senador.

Segundo a reportagem, o dinheiro teria como objetivo favorecer interesses ligados ao Banco Master. O caso também mencionava suspeitas envolvendo o Fundo de Pensão dos Servidores do Amapá, administrado à época por um ex-tesoureiro de campanha de Alcolumbre.

O senador negou categoricamente qualquer irregularidade, classificou as acusações como falsas e afirmou que sua honra estava sendo atacada sem provas. Também recebeu críticas de adversários por utilizar a tribuna do Senado para rebater as denúncias e por atuar contra iniciativas que buscavam instalar uma CPI ou CPMI para investigar o caso. Até o momento, não há condenação judicial contra Alcolumbre relacionada a esse episódio.

Acusações de "rachadinha" também marcaram sua trajetória

Outra controvérsia de grande repercussão surgiu em 2021, quando reportagens jornalísticas apontaram a existência de um suposto esquema de "rachadinha" em seu gabinete parlamentar.

As matérias relataram que assessoras contratadas receberiam salários elevados e devolveriam parte significativa dos vencimentos. As investigações alcançaram integrantes do antigo gabinete do senador, incluindo seu ex-chefe de gabinete, Paulo Boudens, que firmou um Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) com a Procuradoria-Geral da República.

Davi Alcolumbre sempre negou qualquer participação no esquema e afirmou que jamais autorizou ou teve conhecimento de desvios praticados por assessores. Também nesse caso, não houve condenação definitiva contra o senador.

Controle da pauta gera críticas recorrentes

Além das acusações de natureza investigativa, Alcolumbre também é alvo de críticas por sua forma de conduzir o Senado.

Durante sua passagem pela presidência da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), foi acusado por adversários de utilizar o controle da pauta como instrumento de negociação política. Um dos episódios mais lembrados foi o adiamento, por vários meses, da sabatina de André Mendonça para o Supremo Tribunal Federal durante o governo Jair Bolsonaro.

Analistas políticos e parlamentares de diferentes correntes ideológicas frequentemente apontam que esse tipo de articulação fortalece o poder institucional do presidente do Senado, mas também pode ser interpretado como mecanismo de pressão sobre o Executivo. Trata-se, porém, de avaliações políticas, e não de conclusões judiciais.

As críticas reaparecem sempre que projetos de grande impacto fiscal — conhecidos popularmente como "pautas-bomba" — entram na agenda do Congresso. Nesta semana, por exemplo, Alcolumbre decidiu adiar a votação de uma Proposta de Emenda à Constituição que cria aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde e agentes de combate às endemias, proposta cujo impacto fiscal é estimado em cerca de R$ 30 bilhões ao longo de dez anos.

Investigações antigas sem condenação definitiva

O nome de Alcolumbre também apareceu em investigações anteriores, como a Operação Pororoca, que apurou suspeitas de superfaturamento de obras públicas no Amapá, e na Operação Miquéias, que investigou fraudes em fundos de previdência municipais.

Além disso, o senador chegou a responder a inquéritos relacionados ao suposto uso de notas fiscais frias em sua campanha eleitoral de 2014. Esses procedimentos acabaram arquivados pelo Supremo Tribunal Federal por ausência de provas suficientes para o prosseguimento das investigações.

Congresso e confiança pública

Ao afirmar que o Congresso não pode ser tratado como "inimigo do povo", Davi Alcolumbre levanta uma discussão relevante sobre o papel institucional do Parlamento. Ao mesmo tempo, sua declaração evidencia um dilema da política brasileira: a credibilidade do Legislativo depende não apenas do respeito entre os Poderes, mas também da confiança que seus próprios dirigentes conseguem transmitir à sociedade.

Nesse contexto, a recuperação da imagem do Congresso passa por maior transparência, celeridade na apuração de denúncias e redução das disputas políticas em torno da pauta legislativa. Já Alcolumbre afirma que as acusações contra sua atuação fazem parte de uma estratégia para enfraquecer o Senado e criminalizar a atividade política.

Sem condenações definitivas nos episódios em que foi citado, o presidente do Senado segue negando todas as acusações e sustentando que sua atuação está amparada pela Constituição e pela autonomia do Poder Legislativo. Ainda assim, seu histórico de controvérsias continua alimentando o debate público sobre os limites entre articulação política, exercício do poder e responsabilidade institucional.

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