Mulher

Por que tanto preconceito com a palavra ‘puta’?

Ativista transformou vivência na prostituição em luta por direitos


Alexandre Nunes/Divulgação/Divulgação Por que tanto preconceito com a palavra ‘puta’?
A ativista Lourdes Barreto, fundadora do Grupo de Mulheres Prostitutas do Estado do Pará

Lourdes Barreto, 82 anos, é um dos nomes mais importantes da luta por direitos das trabalhadoras sexuais no Brasil. Referência nacional e internacional, a ativista construiu uma trajetória marcada por resistência, organização política e combate ao estigma, transformando sua própria experiência em instrumento de mobilização social. Com informações da Revista Piauí 

Quem é Lourdes Barreto

Nascida em 1943, no Maranhão, Lourdes Barreto enfrentou desde cedo uma realidade de pobreza, violência e falta de acesso à educação. Ainda adolescente, iniciou-se na prostituição — uma condição que, ao longo dos anos, deixaria de ser apenas meio de sobrevivência para se tornar base de sua atuação política.

Ao se estabelecer em Belém, no Pará, consolidou-se como uma das principais lideranças do movimento de prostitutas no país. Sua atuação foi decisiva na criação de organizações como o Grupo de Mulheres Prostitutas do Estado do Pará (GEMPAC) e na articulação da Rede Brasileira de Prostitutas.

Militância e luta por direitos das trabalhadoras sexuais

A atuação de Lourdes Barreto esteve diretamente ligada à defesa do reconhecimento da prostituição como trabalho. Ao longo de décadas, ela enfrentou o preconceito estrutural que marginaliza mulheres em situação de prostituição, defendendo dignidade, cidadania e acesso a políticas públicas.

Entre suas principais contribuições estão:

  • a organização política das trabalhadoras sexuais no Brasil

  • o combate ao estigma e à criminalização social

  • a promoção da saúde, especialmente no enfrentamento ao HIV/AIDS

  • a formação de redes de apoio e informação entre prostitutas

Durante a epidemia de AIDS, sua atuação foi fundamental para transformar prostitutas em agentes de prevenção e cuidado, ampliando o alcance de políticas públicas de saúde.

Belém, Campina e a memória da repressão

A história de Lourdes Barreto se entrelaça com a própria trajetória da prostituição em Belém, especialmente no bairro da Campina. Foi ali que viveu décadas de trabalho, convivendo tanto com períodos de intensa atividade quanto com momentos de repressão.

Durante a ditadura militar, por exemplo, cabarés foram fechados e prostitutas passaram a sofrer perseguições sistemáticas e violência policial. Mesmo nesse contexto, Lourdes manteve uma postura combativa, denunciando abusos e reivindicando melhores condições de vida e trabalho.

Movimento nacional e articulação política

Ao lado de lideranças como Gabriela Leite, Lourdes ajudou a estruturar o movimento nacional de prostitutas. Em 1987, participou da criação da Rede Brasileira de Prostitutas, marco fundamental na organização da categoria.

Esse processo contribuiu para conquistas importantes, como:

  • o reconhecimento da prostituição na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO)

  • o avanço no debate sobre direitos previdenciários

  • a ampliação da visibilidade política da categoria

Sua passagem pela Pastoral da Mulher Marginalizada também foi decisiva para fortalecer a organização coletiva e ampliar o diálogo com instituições.

Reconhecimento internacional e autobiografia

Em 2023, Lourdes Barreto lançou sua autobiografia, Puta Autobiografia, reunindo memórias, reflexões e relatos sobre sua trajetória pessoal e política.

Já em 2024, ganhou reconhecimento internacional ao ser incluída na lista BBC 100 Women, que destaca mulheres influentes em todo o mundo.

Um dos momentos mais simbólicos de sua história ocorreu no lançamento do livro, no Theatro da Paz, em Belém. O espaço, onde décadas antes fugia da repressão policial, tornou-se palco de homenagem e consagração pública.

Legado de Lourdes Barreto

Lourdes Barreto nunca abriu mão de afirmar sua identidade como prostituta, rejeitando tentativas de suavização ou invisibilização de sua trajetória. Sua militância sempre esteve centrada na defesa da dignidade e no reconhecimento de direitos.

Hoje, é considerada uma figura central na história dos movimentos sociais no Brasil, especialmente na luta das trabalhadoras sexuais. Seu legado combina experiência pessoal, ativismo político e organização coletiva — transformando uma história de exclusão em referência de resistência e conquista de direitos.

Com informações da Revista Piauí 

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