Segurança Pública

Por que querem limitar ações da Polícia Federal?

Com a PF atuando de forma independente, as investigações chegam aos gabinetes e cofres de quem se considera intocável.


Divulgação Por que querem limitar ações da Polícia Federal?
Polícia Federal

O que está em curso em Brasília é mais do que uma disputa legislativa: é uma ofensiva política contra a autonomia da Polícia Federal. O motivo é claro — a PF está incomodando os poderosos. Investigações recentes atingiram figuras do centrão, governadores e aliados diretos do bolsonarismo. A possibilidade de criação de uma agência nacional de combate às máfias, com poder real sobre esquemas bilionários de corrupção e emendas parlamentares, acendeu o alerta entre os que se beneficiam da impunidade.

A ofensiva contra a PF

Em vez de fortalecer a instituição, como propõe a PEC da Segurança Pública, o relator Guilherme Derrite (PP-SP), em aliança com o presidente da Câmara Hugo Motta (Republicanos-PB) e o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), tentou restringir sua atuação.
A primeira versão do texto do PL Antifacção determinava que a PF só poderia agir mediante solicitação dos governadores — o que, na prática, paralisaria operações federais. Na segunda versão, exigia-se aviso prévio, o que inviabilizaria qualquer ação sigilosa. Ou seja, antes de uma operação, o alvo já saberia que seria investigado.

A quem interessa limitar investigações

O cerco da PF vem apertando. Diálogos interceptados revelaram que assessores do governador Cláudio Castro (PL-RJ) informaram ao Comando Vermelho que o governo fluminense seguiria ordens da facção para não prender chefes do tráfico.
Em São Paulo, a corporação deflagrou operação contra um assessor do secretário Gilberto Kassab (PSD) — aliado de Tarcísio — e encontrou R$ 2,1 milhões em dinheiro vivo. O investigado, Mário Botion, articulava repasses de verbas da Educação para prefeituras e pediu demissão após a operação.
No Rio Grande do Sul, a PF apreendeu R$ 400 mil no escritório do secretário Marcelo Caumo, ligado ao governador Eduardo Leite (PSDB). O dinheiro era proveniente de verbas federais destinadas às vítimas das enchentes. Enquanto isso, o mesmo governo acusava o Planalto de “não enviar recursos”.

Esses casos explicam o medo: com a PF atuando de forma independente, as investigações chegam aos gabinetes e cofres de quem se considera intocável.

Blindagem política e ataque institucional

A reação dos aliados de Tarcísio e de outros governadores bolsonaristas mostra o objetivo: enfraquecer o poder investigativo da Polícia Federal e transferi-lo para as polícias civis dos estados, sob controle direto dos governadores.
Hoje, Hugo Motta convocou uma reunião com o chamado Consórcio da Paz, grupo formado por Cláudio Castro, Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Ibaneis Rocha — todos críticos da PF e alinhados à extrema direita. O grupo quer “descentralizar” investigações e, assim, garantir que operações contra corrupção, facções e milícias sejam sufocadas.

O papel de Derrite

O relator Guilherme Derrite, ex-policial e atual secretário de Segurança de Tarcísio, mostrou despreparo e alinhamento político. Entregou um novo relatório em tempo recorde, ignorando técnicos e especialistas. O texto dificulta o sequestro de bens de facções e impede a PF de agir autonomamente.
O ministro Ricardo Lewandowski (Justiça e Segurança Pública) classificou o episódio como “estranho e irresponsável”, enquanto o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, alertou que subordinar as ações da corporação aos governos estaduais “liquida com a Federação” e devolve o país às “capitanias hereditárias”.

O risco institucional

Por trás do discurso de “combate ao crime”, o que se vê é uma articulação entre o crime organizado, milicianos e setores da extrema direita. Essa aliança tenta capturar o Estado e submeter instituições de controle — como a PF e o Ministério Público — a interesses políticos e eleitorais.
Derrite e Motta transformaram o PL Antifacção em uma ameaça à soberania nacional: criminaliza movimentos sociais, fragiliza o combate às máfias e tenta silenciar quem denuncia.

Defender a PF é defender a democracia

O governo federal enviou um projeto técnico, construído com a Polícia Federal e especialistas, para fortalecer a segurança pública e enfrentar as facções. O que se tenta fazer agora é desfigurá-lo, enfraquecendo quem investiga e protege o país.
A sociedade precisa entender: limitar a Polícia Federal é proteger corruptos, traficantes e milicianos.
É hora de reagir. O PL Antifacção não pode ser votado sem debate público. O que está em jogo é o futuro da democracia e a independência das instituições que combatem o crime no Brasil.

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