Piauiês, a riqueza vocabular do povo piauiense
É um convite à escuta sensível da linguagem popular, que carrega, em cada sílaba, a história e a alma do sertão nordestino
Em um exercício poético de valorização da identidade linguística regional, a professora, assistente social e poetiza Rosângela Sousa oferece, no poema Piauiês, uma homenagem à riqueza vocabular do povo piauiense. Publicado no livro Contos Poéticos (2019) e Encantos Nordestinos, o texto mergulha nos termos e expressões populares do Piauí, revelando uma linguagem viva, marcada pela oralidade, criatividade e orgulho cultural. Com rimas simples e cadenciadas, Rosângela transforma o que muitos poderiam ver como “fala errada” em fonte de dignidade e resistência identitária.
No poema, cada estrofe funciona como um glossário afetivo, apresentando palavras como “borimbora”, “istruir”, “pé de pano” e “caxaprego” com seus significados e usos cotidianos. A autora não apenas registra essas expressões como também reivindica o direito de falá-las, defendendo o piauiês como forma legítima de expressão e pertencimento. É um convite à escuta sensível da linguagem popular, que carrega, em cada sílaba, a história e a alma do sertão nordestino.
PIAUIÊS
Do vocabulário Piauiês
Língua muito conservada
No Piauí adotada
Me orgulho da altivez
No mesmo conversa caçar
Significa alguém provocar, irritar
Só ar tira é ressacada
É o Zé jogado na calçada
Borimbora vem de bora
Junto com a palavra imbora
Significando vamos embora
Igual ao termo vumbora
Sem graça é distrenado
Cheio de grana é estribado
Torto é ingembrado
Enfurecido é ispritado
Infarento é chato e não vai mudar
Papocar é com força jogar
Istruir é desperdiçar
Pelejar é exaustivamente tentar
Dirligar é algo desligar
Bulir é mexer, traquinar
Fulerar é frescar, brincar
Torar brita é errar, vacilar
Pé de pano diz-se do amante
Caxaprego fala-se do lugar distante
Gastura é mal estar, gente inconveniente
Barruada é igual a batida, acidente
Aberar é fugir, escapar, correr
Pripinar é usar, bagunçar, mexer
Ao se dizer a palavra barrer
Fala-se o mesmo que varrer
Mobral é analfabeto, idiotão
O que não aprendeu a lição
Pelo vocábulo mermão
Diz-se afetuosamente meu irmão
Anteontem fala-se ontõnti
Diminutivo de Antonio, é Antõin
Para significar asneiras, bobagem
Diz-se singularmente, eguagem
Assim, o Piauiês se estabelece
É um dialeto que cresce
Uma linguagem que enobrece
Uma autenticidade que enaltece
Defendamos nossa piauiensidade
Dominemos nossa singularidade
Cuidemos de nossa especificidade
Garantamos nossa identidade.
(Rosângela Sousa, Teresina Piauí, 2006)
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