Pai que matou filho em Itumbiara puxou o gatilho — mas quem está sendo apedrejada é a mãe
Em Itumbiara, tragédia expõe o peso da culpa social sobre mães: mesmo vítima, mulher é responsabilizada pela morte dos filhos
O Secretário de Governo de Itumbiara, Goiás, Thales Naves Alves Machado, atirou contra seus dois filhos na madrugada de quinta-feira (12), matando o mais velho, Miguel Araújo Machado, 12 anos. O mais novo, de 8, foi socorrido, passou por cirurgia, mas também não resistiu e morreu. A mãe das crianças, Sarah Araújo, deixou o cemitério antes do término da cerimônia por receio de agressões, chegando ao local sob escolta, com medidas para reduzir sua exposição.
Por Nathalí Macedo, jornalista, no DCM
Cada dia que passo vivendo como uma mulher me traz mais certeza: nenhuma de nós é tão julgada quanto uma mãe.
Imagine: um pai mata o filho a tiros, deixa o caçula em estado gravíssimo, mas a mãe tem que sair do velório às pressas sob ameaças e insultos.
Não é preciso imaginar. Aconteceu em Itumbiara (GO).
O secretário de governo da prefeitura do município, Thales Naves Alves Machado, atirou para matar os dois filhos antes de tirar a própria vida.
Um morreu e o outro segue em estado gravíssimo.
É fácil ler como tragédia, e é uma tragédia, mas ninguém percebe o peso da cruz sobre os ombros dessa mãe?
Ela ficou viúva e perdeu um filho. Teme terrivelmente perder outro. E a sociedade, que tanto fala em empatia sobretudo no discurso oficial, só consegue apedrejá-la.
Detalhe: a polícia descartou participação de outras pessoas no crime. O homem agiu sozinho.
A mãe estava viajando a São Paulo quando o crime brutal aconteceu — uma viagem comum, que qualquer homem faria sem ser insultado e apontado como culpado pela morte dos filhos.
Para um homem, é preciso muito mais pra sofrer qualquer acusação do gênero. Às vezes, nem matar os próprios filhos choca: a responsabilidade é sempre da mãe, o sexo frágil, as criaturas mais fortes que já conheci.
Aguentam de tudo, porque sempre aguentaram.
Não bastasse a dor de perder o filho e o marido com quem se casara há 15 anos — por mais desgraçado que ele seja, uma viuvez, um golpe —, ainda é preciso que a culpa seja jogada sobre seus ombros, seja por ter viajado e deixado os filhos “sozinhos” (com o pai????), seja por ser acusada de participar do crime, sem qualquer suspeita formal.
Também não é preciso suspeita formal. Nada é tão fácil na sociedade que odeia mulheres quanto apontar as mães: elas fazem em geral um excelente trabalho, mas se cobram e são cobradas desumanamente e estão sempre no banco dos réus, não importa o quanto se esforcem.
Esse ódio às mães é sistemático: um sistema que as aprisiona em uma teia moral e lhes exige perfeição sobrehumana conduz um verdadeiro projeto de culpabilização e controle.
Esse mecanismo opera de forma tão naturalizada que raramente é nomeado: a maternidade é convertida em função pública, permanentemente vigiada e avaliada, como se cada decisão privada fosse passível de julgamento coletivo. Não se trata apenas de expectativa social, mas de uma disciplina moral que transforma cuidado em obrigação absoluta e falibilidade em culpa — uma lógica que desumaniza mulheres ao negar-lhes complexidade, limite e contradição.
A mulher perdeu o filho. Sabe-se lá o que vinha vivendo antes do estopim.
Ela ficou pra contar a história trágica, e pra ser apontada como culpada por ela, mesmo que isso não faça o menor sentido.
A maioria dos comentários nojentos culpando a mulher estão associadas a perfis declaradamente bolsonaristas. O que emerge daí não é só ruído digital — é um reflexo social profundamente enraizado: a necessidade quase automática, sobretudo do bolsonarismo que odeia mulheres, de transformar a dor de uma mãe em suspeita, de deslocar a violência masculina para o campo da responsabilidade feminina, como se a maternidade fosse um cargo de vigilância permanente e não uma experiência humana atravessada por limites e vulnerabilidade.
Esses julgamentos estão afetados invariavelmente pelo puro suco de misoginia à brasileira: atacando uma mãe com violência moral que insiste em punir quem ficou viva para sofrer, como se sobreviver já fosse um crime, exclui-se a responsabilidade de quem acionou o gatilho e uma mãe é apontada só por ser… Mãe.
Talvez o mais brutal dessa história não seja apenas o crime, mas o reflexo coletivo que ele revela — o impulso automático de transformar dor materna em suspeita.
Enquanto continuarmos tratando mães como responsáveis por tudo, inclusive pelo que jamais controlaram, estaremos apenas reafirmando a violência simbólica que sustenta esse ciclo. Porque quando uma mulher perde um filho e ainda precisa provar sua inocência ao mundo, não é ela que fracassou — é a sociedade inteira.
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