Política

O mundo pós-regras: por que a crise na Venezuela expõe a falência da ordem internacional

A ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela é interpretada por analistas como um ato ilegal que revela o esgotamento do imperialismo norte-americano e a substituição da diplomacia pela força


IA O mundo pós-regras: por que a crise na Venezuela expõe a falência da ordem internacional
A crise na Venezuela e a falência da ordem internacional

A ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela é interpretada por analistas como um ato ilegal que revela o esgotamento do imperialismo norte-americano e a substituição da diplomacia pela força. As análises apontam que a ação integra um projeto de longo prazo de controle de recursos e reposicionamento geopolítico na América Latina. Nesse contexto, a Venezuela surge como laboratório e aviso, enquanto o Brasil aparece no horizonte estratégico de pressão futura.

O QUE ACONTECEU 

A ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela, que teria culminado no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua família, vem sendo interpretada por analistas, economistas e jornalistas como um marco grave de ruptura do direito internacional e de aprofundamento de uma lógica imperial em declínio, marcada pela substituição da diplomacia pela força bruta. Em entrevistas recentes, vozes críticas convergem ao afirmar que o episódio não é isolado, mas parte de um projeto de longo prazo que recoloca a América Latina — e o Brasil — no centro da disputa geopolítica global.

Em entrevista ao professor Glenn Diesen, o economista Jeffrey Sachs classificou a ação norte-americana como um “ato escancaradamente ilegal” e uma agressão sem provocação, expressão de um país que, segundo ele, já não opera sob uma ordem constitucional efetiva. Para Sachs, a captura de Maduro se insere em uma sequência de ameaças e intervenções intensificadas sob o governo Donald Trump, em um cenário no qual decisões de guerra seriam tomadas por decretos, sem controle do Congresso e sem debate público. Nesse contexto, os Estados Unidos estariam funcionando como um “Estado militar”, enquanto instituições civis se tornariam meramente decorativas.

O economista também apontou silêncio ou complacência da grande imprensa norte-americana, citando diretamente o The New York Times, e foi ainda mais duro ao avaliar a postura europeia, classificada como submissa e incapaz de reagir a uma violação frontal da Carta da ONU. Para Sachs, a Organização das Nações Unidas atravessa um processo de esvaziamento semelhante ao da Liga das Nações no período pré-Segunda Guerra, tornando-se, na prática, impotente diante das ações unilaterais de grandes potências.

Ao analisar as motivações da ofensiva, Sachs foi direto ao apontar a disputa por recursos naturais, especialmente o petróleo. Segundo ele, a Venezuela segue sendo alvo histórico justamente por defender soberania sobre suas reservas energéticas, contrariando interesses estratégicos de Washington. Nesse quadro, o atual secretário de Estado, Marco Rubio, é descrito como um dos principais articuladores de uma política de pressão contínua contra Caracas, sustentada por narrativas variáveis — narcotráfico, terrorismo ou alianças internacionais — conforme a conveniência do momento.

Uma leitura complementar, mas convergente no diagnóstico estrutural, foi apresentada pelo jornalista José Arbex Jr., em entrevista ao programa Forças do Brasil. Para Arbex, a ofensiva contra a Venezuela não demonstra força, mas desespero de um imperialismo em retração, pressionado pelo avanço de um mundo multipolar. Ele sustenta que os Estados Unidos acumulam derrotas estratégicas recentes, citando a guerra na Ucrânia, o impasse no Oriente Médio e o recuo de potências ocidentais na África. Nesse cenário, Washington teria abandonado a pretensão globalista do pós-Guerra Fria e retornado a uma lógica de controle direto do hemisfério ocidental.

Arbex interpreta essa reorientação como uma espécie de “Doutrina Monroe 2.0”, na qual a América Latina volta a ser tratada como “quintal” estratégico, especialmente diante da ascensão da China, da consolidação dos Brics e da erosão do chamado soft power norte-americano. Segundo ele, os EUA já não conseguem convencer nem liderar pelo discurso e pela cultura, recorrendo quase exclusivamente ao hard power — um sinal clássico de decadência imperial. A Venezuela, nesse contexto, seria alvo prioritário por reunir três fatores centrais: as maiores reservas de petróleo do planeta, o papel simbólico da revolução bolivariana na reorganização das esquerdas latino-americanas e uma posição geopolítica sensível, com riquezas minerais e presença amazônica.

O alerta se estende ao Brasil. Para Arbex, o país reúne exatamente os ativos que despertam o interesse estratégico norte-americano — território, biodiversidade, petróleo, terras raras e água — e, por isso, não está fora do radar. Ele interpreta o episódio venezuelano como uma advertência direta e avalia que a reação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao criticar a captura de Maduro, foi correta, embora defenda uma postura diplomática mais ativa e menos hesitante na integração regional e no fortalecimento dos Brics.

A noção de que a ofensiva contra Caracas é um recado mais amplo também aparece na análise de Amauri Chamorro, em entrevista à TV 247. Para ele, a América Latina vive sob risco permanente de golpes e desestabilizações, independentemente do grau de alinhamento diplomático com Washington. Chamorro associa o sequestro de Maduro a um histórico de intervenções e golpes na região, incluindo Bolívia, Peru, Equador e Brasil, e sustenta que o controle sobre recursos naturais — água, petróleo, minerais e energia — é o eixo central dessa política. Na sua leitura, discursos sobre narcotráfico e terrorismo funcionam como pretextos recorrentes para criar uma aparência de legalidade a ações essencialmente ilegais.

Uma camada adicional dessa análise estratégica foi apresentada pelo jornalista Pepe Escobar, também em entrevista à TV 247. Ao comentar documentos de segurança associados ao segundo mandato de Trump, Escobar afirma que o “hemisfério ocidental” é definido como prioridade absoluta e que, dentro desse recorte, o Brasil surge como principal objetivo de médio e longo prazo, ainda que não seja citado nominalmente. Para ele, trata-se de uma atualização explícita da doutrina Monroe, agora “sob esteroides”, que reorganiza a atuação dos EUA ao concentrar pressão onde considera ter maior margem de controle.

Apesar das diferenças de ênfase, Sachs, Arbex, Chamorro e Escobar convergem em um ponto central: a ofensiva contra a Venezuela não é um episódio isolado nem um gesto de força incontestável, mas expressão de uma ordem internacional em crise, na qual normas, instituições e acordos são corroídos pela ação unilateral. O risco, segundo eles, é que a normalização dessa ilegalidade produza instabilidade prolongada, conflitos internos, guerras por procuração e um ambiente global cada vez mais imprevisível. Nesse cenário, a América Latina aparece simultaneamente como alvo e como teste, em um momento em que a capacidade de articulação regional e de defesa da soberania tende a se tornar decisiva.

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