O dia em que a direita brasileira comemorou a violação da soberania latino-americana
A história da América Latina ensina, com clareza dolorosa, que “libertações” impostas por potências estrangeiras raramente terminam em democracia
Lideranças da direita brasileira passaram a celebrar o ataque dos Estados Unidos à Venezuela, relativizando a soberania nacional e o direito internacional. Governadores e parlamentares trataram a ofensiva militar como “libertação”, adotando um discurso alinhado a Washington e ignorando riscos de instabilidade regional. Em sentido oposto, o governo brasileiro condenou a ação e alertou para os perigos de precedentes que normalizam a força como instrumento político.
O QUE ACONTECEU
O ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela produziu, no Brasil, uma cena que mistura oportunismo político, submissão ideológica e desprezo aberto pelo direito internacional. Lideranças expressivas da direita brasileira não apenas deixaram de condenar a ofensiva estrangeira como passaram a celebrá-la, adotando um discurso eufórico que transforma bombardeios, mortes e ruptura institucional em suposta “libertação”.
O caso mais emblemático veio do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que tratou a ação militar como um “marco histórico”, exaltando o 3 de janeiro como o dia da libertação do povo venezuelano. Ao recorrer a slogans fáceis — “democracia”, “liberdade”, “prosperidade” — Caiado optou por ignorar deliberadamente o que está em jogo: a violação frontal da soberania de um país vizinho por uma potência estrangeira. Em nome de um anticomunismo automático, o governador goiano relativizou princípios básicos do sistema internacional que o próprio Brasil sempre defendeu, inclusive sob governos conservadores.
A mesma lógica de submissão apareceu no Paraná. O governador Ratinho Jr. foi além e decidiu parabenizar publicamente o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, classificando a ofensiva como uma “brilhante decisão”. A celebração ocorreu mesmo diante da captura do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores, um episódio que, em qualquer manual mínimo de relações internacionais, configura ruptura grave da ordem jurídica entre Estados.
O discurso de Caiado e Ratinho Jr. revela mais do que divergência ideológica: expõe uma visão colonializada da política externa, na qual a força militar de Washington é tratada como instrumento legítimo de “correção” política na América do Sul. Trata-se de uma inversão perigosa: líderes eleitos no Brasil defendendo que outro país seja “libertado” por bombas estrangeiras, como se a história latino-americana não estivesse repleta de exemplos trágicos desse tipo de intervenção.
Em contraste direto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotou uma posição coerente com a tradição diplomática brasileira ao repudiar a ofensiva. Ao classificar o ataque como violação grave do direito internacional e alerta de precedentes perigosos, Lula recolocou o debate no eixo correto: não se trata de simpatia ou antipatia por governos, mas do respeito às regras mínimas que impedem o mundo de mergulhar na lógica da força bruta.
A reação da direita brasileira, no entanto, seguiu por um caminho ainda mais radical. O senador Ciro Nogueira transformou a agressão externa em espetáculo retórico, celebrando o suposto “fim da ditadura” e acusando a esquerda de “passar pano” para regimes autoritários. O discurso ignora convenientemente que a derrubada de governos pela força estrangeira não produz democracia — produz instabilidade, violência e dependência.
Já Eduardo Bolsonaro elevou o tom conspiratório ao associar a Venezuela ao Foro de São Paulo, sugerindo que a captura de Maduro abriria “dias terríveis” para líderes progressistas da região. A retórica, mais próxima de propaganda ideológica do que de análise política, transforma a geopolítica sul-americana em um tabuleiro de guerra simbólica, onde tudo se justifica desde que o inimigo seja derrotado.
O que une essas manifestações não é a defesa sincera da democracia, mas a disposição em aplaudir a violência internacional quando ela atinge adversários ideológicos. Ao comemorar bombardeios e capturas como se fossem finais de campeonato, setores da direita brasileira revelam desprezo pela soberania dos povos latino-americanos e pela ideia de uma região como zona de paz.
No fim, o episódio escancara uma contradição central: aqueles que dizem defender a liberdade mostram-se dispostos a sacrificá-la quando a força vem de fora e atende a seus interesses políticos. A história da América Latina ensina, com clareza dolorosa, que “libertações” impostas por potências estrangeiras raramente terminam em democracia — e quase sempre cobram um preço alto demais.
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