Política

O 4º governo Lula e a última chance da geração das diretas, por Luís Nassif

Veja artigos do jornalista Luís Nassif onde ele procura discutir o futuro do Brasil


IA O 4º governo Lula e a última chance da geração das diretas, por Luís Nassif
Luis Inácio Lula da Silva

A última chance da geração das diretas

Dez anos do impeachment de Dilma Rousseff comemorados com gala: a divulgação, pelo Intercept, do ex-candidato bolsonarista à presidência da República, Flávio Bolsonaro, solicitando mais de uma centena de milhões de dólares ao vilão número 1 da República, Daniel Vorcaro.

Nada poderia ser mais significativo.

O impeachment de Dilma Rousseff marcou o fracasso final da geração da Constituinte. Do Movimento das Diretas saiu a mais civilizada Constituinte da história. A ditadura deixou uma economia engessada, mas completando a etapa da industrialização.

O país saía da ditadura com uma Constituinte modelo, dois partidos confiáveis, se revezando no poder, depois do terremoto de Fernando Collor.

Mais. Tinha a grande oportunidade de um salto no desenvolvimento. Havia um sistema técnico-científico robusto, uma indústria de base e metal-mecânica em condições de conquistar o mercado externo, mudanças radicais na telemática e na logística, habilitando o país a ser um dos hubs da nova arquitetura de fornecedores globais.

Eram Brasil, China e Índia como candidatos a futuras potências mundiais.

Lembro-me de um gráfico analisando as 10 ciências mais promissoras da época. A China tinha alguns pontos muito altos e outros inexistentes. Já o Brasil está bem colocado em todos os pontos.

Aí sobrevieram os desastres. Primeiro, a teoria do choque, experimentada por Collor e implementada por Fernando Henrique Cardoso, com uma política cambial deliberadamente apreciada para tornar o país um grande negócio para os grandes fundos internacionais – associados aos economistas do Real.

Ano após ano a indústria foi desmilinguindo. As grandes estatais, fundamentais como âncoras da nova etapa – inclusive para garantir o florescimento de empresas, competindo em nível de mercado – foram sendo vendidas. Os recursos ajudavam a fechar o balanço de pagamentos mas deixavam, de herança, um volume cada vez maior de remessas para o exterior, a título de dividendos e royalties.

Ao mesmo tempo, a partir de 1999 subordinou-se o país ao capital financeiro especulativo, com a implantação das metas inflacionárias e de uma ampla desregulação do mercado, que deixou o câmbio à mercê dos humores do capital gafanhoto e a economia subordinada a taxas de juros impossíveis.

Seguiu-se um amplo desgosto da opinião pública, uma falta de sonhos, provisoriamente superada pelo boom das commodities e pelo pique do segundo governo Lula. Quando cessou a bonança, tudo veio abaixo.

Seguiram-se a Lava Jato e o impeachment, um jornalismo de ódio só visto, antes, nos meses que antecederam o suicídio de Vargas e o golpe de 1964. E, uma a uma, as instituições foram sendo varridas do mapa.

A Constituição foi atropelada pelo impeachment sem crime. No Supremo, Ministros que tentaram resistir aos desmandos da Lava Jato morreram em acidentes. Outros se deixaram levar da forma mais sórdida. Deram posse a Michel Temer, prenderam Lula para impedi-lo de participar das eleições de 2018. Jornalistas passaram a agir como policiais.

E, a partir daí, escancarou-se a política para o crime organizado, inicialmente as organizações criminosas localizadas no Rio de Janeiro, no entorno dos Bolsonaro.

Depois, com Bolsonaro no poder, a dupla Roberto Campos Neto-Paulo Guedes, abriu as portas do mercado financeiro ao crime organizado, permitindo que qualquer empresa, até fintechs de porta de quintal, pudessem se tornar canais para a circulação do crime organizado.

O preço pago foi extremamente elevado. Quebrou-se o setor mais dinâmico da economia, das grandes empreiteiras. Permitiu-se a morte de 700 mil pessoas pelo Covid e, principalmente, escancarou-se a viralatice nacional, a ponto de jornais tentarem repetir a Lava Jato.

Não apenas isso. Nenhum dos governos que se seguiram ao infausto governo FHC logrou montar um plano sequer que apontasse o futuro. Houve avanços, é verdade, no Bolsa Familia, nas políticas educacionais, no fortalecimento do SUS. Mas o grande salto, capaz de estimular o pacto nacional, não ocorreu.

O país ficou nas mãos de uma figura política admirável, no plano internacional e como defensora da democracia, mas incapaz de sair da mesmice e escapar das armadilhas impostas pela financeirização de FHC.

O país caminha para as eleições com dois cenários pela frente. Com Bolsonaro ou qualquer um do meio, a destruição do que resta de projeto nacional; com Lula, a democracia salva mas um grande risco de se ter mais do mesmo.

O país anseia pelo novo, anseia por reconstruir o futuro ainda que, inicialmente, no imaginário popular. Lula precisa acordar para sua responsabilidade de, para o quarto governo, criar um plano de metas adequado às possibilidades abertas ao país: terras raras, energia verde, digitalização. Se não conseguir, será o responsável pela última pá de cal na geração das diretas.

Lula precisa mudar seu estilo de governar

Antes de mais nada, é preciso reconhecer a importância da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva nas próximas eleições. Hoje, ela ainda representa a principal garantia de preservação da democracia brasileira e de contenção de qualquer projeto destrutivo associado ao bolsonarismo.

Não está em discussão, portanto, a relevância política da candidatura Lula.

A questão central é outra: o que esperar de um quarto governo Lula?

Vende-se a ideia de que, por se tratar de seu último mandato, Lula buscaria realizar um governo histórico, capaz de recolocar o Brasil no caminho da reindustrialização, da soberania tecnológica e de um novo ciclo de desenvolvimento.

É aí que surgem as dúvidas.

Com Lula, encerra-se não apenas um período do PT no poder, mas provavelmente todo o ciclo histórico da Nova República. E, se um quarto mandato terminar sendo apenas “mais do mesmo”, como foi o terceiro, a redemocratização deixará ao país um legado ambíguo:

  • crescimento econômico em “voo de galinha”;
  • desindustrialização acelerada;
  • subordinação ao capital financeiro nacional e internacional;
  • incapacidade crônica de formular um projeto estratégico de país.

Esse pessimismo decorre, em parte, do próprio estilo de gestão de Lula. Ele nunca foi um político orientado por planos estruturantes de longo prazo. Seu modelo de ação sempre esteve baseado na lógica da “entrega”: manter permanentemente algo concreto a oferecer à população.

E, por “entrega”, não se entenda visão de futuro ou transformação estrutural, mas realizações materiais e imediatas: Bolsa Família, PAC, Desenrola, programas sociais e obras públicas.

Não se trata de desprezar isso. Em um país devastado pela Operação Lava Jato, pela radicalização bolsonarista, pela corrosão institucional e pela infiltração crescente do crime organizado em estruturas do Estado, garantir governabilidade é tarefa monumental.

Mas planos nacionais de metas exigem outra lógica. Exigem prioridades rígidas, coordenação estratégica, disciplina institucional e limitação da improvisação política cotidiana.

E Lula sempre resistiu a esse tipo de amarra. É capaz de discursos sobre a importância da reindustrialização, com as terras raras, da soberania, do plano de metas. Mas apenas como argumentos de retórica, não como linhas de ação.

Um plano de metas reduziria a liberdade de acomodação política em decisões de governo — inclusive em episódios recentes, como a licitação de termelétricas conduzida pelo Ministério de Minas e Energia, claramente desenhada para beneficiar grandes grupos econômicos nacionais.

Essa resistência ao planejamento aparece em diversos momentos da trajetória dos governos petistas.

O caso da TV digital

No segundo governo Lula, a então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, coordenou de forma exemplar o processo de implantação do padrão brasileiro de TV digital.

Ali surgiu algo raro na história recente do país: um verdadeiro miniplano de metas tecnológico.

Discutia-se não apenas televisão, mas a construção de um ecossistema industrial avançado. Havia propostas concretas de offset tecnológico em semicondutores — isto é, utilizar as compras públicas e a implantação da nova infraestrutura digital como instrumento de desenvolvimento industrial.

A lógica era simples: se o Brasil iria adquirir tecnologia estrangeira em larga escala, deveria exigir contrapartidas estratégicas, tais como:

  • instalação de fábricas no país;
  • transferência de tecnologia;
  • treinamento de engenheiros;
  • criação de centros de pesquisa;
  • fabricação local de componentes;
  • licenciamento de patentes;
  • parcerias com universidades;
  • formação de fornecedores nacionais;
  • desenvolvimento de uma cadeia produtiva própria.

Foi um dos poucos momentos em que o Brasil operou próximo da lógica adotada por Japão e Coreia do Sul: articulação entre Estado, indústria, universidades, diplomacia tecnológica e mercado consumidor.

O SBTVD não era apenas televisão digital. Envolvia:

  • compressão digital;
  • middleware;
  • semicondutores;
  • software embarcado;
  • propriedade intelectual;
  • indústria eletrônica;
  • formação de engenharia;
  • integração latino-americana.

O Ginga talvez tenha sido o maior símbolo desse esforço: o Brasil produzindo arquitetura tecnológica própria, e não apenas importando padrões estrangeiros. PUC-Rio e Universidade Federal da Paraíba criaram algo genuinamente inovador.

Havia até discussões para transformar a TV digital em plataforma de inclusão digital massiva, permitindo que televisores convencionais acessassem serviços públicos e internet.

Era uma visão estratégica.

Mas, como tantas vezes ocorre no Brasil, o processo parou na entrega inicial.

A oportunidade perdida

Os OLEDs representavam outra janela histórica.

Quem compreendeu cedo a importância dessa tecnologia conquistou posições centrais na cadeia global de displays — hoje presentes em celulares, televisores, automóveis, equipamentos médicos, sistemas militares e painéis industriais.

A Samsung Electronics construiu uma verdadeira muralha tecnológica em torno disso. A LG Display fez o mesmo.

OLED não é apenas uma tela melhor. É a porta de entrada para:

  • materiais avançados;
  • química fina;
  • semicondutores;
  • nanotecnologia;
  • automação industrial;
  • propriedade intelectual;
  • engenharia eletrônica sofisticada.

O Brasil esteve perto de construir um embrião de visão sistêmica nessa área.

Mas o modelo político predominante encerrava o ciclo na inauguração.

Faltavam os movimentos seguintes:

  • consolidar cadeias produtivas;
  • proteger competências nacionais;
  • financiar inovação continuamente;
  • criar demanda tecnológica estatal permanente;
  • internacionalizar empresas;
  • sustentar o planejamento ao longo de décadas.

O padrão JK

Juscelino Kubitschek compreendia intuitivamente essa lógica. O Plano de Metas não era apenas um conjunto de obras: era uma narrativa nacional de transformação.

Curiosamente, a Ásia assimilou esse espírito de maneira mais profunda do que o próprio Brasil.

A ironia histórica é brutal: o Brasil ajudou a desenvolver um dos sistemas de TV digital mais sofisticados do mundo em desenvolvimento — e hoje importa componentes críticos até para urnas eletrônicas, telecomunicações e automóveis.

O mecanismo do offset tecnológico foi utilizado sistematicamente pela China, pela Coreia do Sul e, historicamente, até pelos Estados Unidos, sobretudo por meio de compras governamentais e da indústria de defesa.

No Brasil, porém, parte das elites econômicas passou a tratar política industrial como heresia e offset como “interferência estatal”, quando, na realidade, esse foi o mecanismo utilizado por praticamente todas as potências industriais modernas para construir soberania tecnológica.

Talvez aí resida o aspecto mais melancólico da história recente brasileira.

Não faltou inteligência técnica. Não faltaram quadros qualificados. Não faltaram oportunidades históricas.

Faltou persistência estratégica. O Brasil frequentemente monta o palco — e desmonta o cenário antes do segundo ato.

Por isso, a geração das Diretas talvez só escape da lata de lixo da história se dois movimentos ocorrerem simultaneamente:

  • a reeleição de Lula;
  • e uma profunda mudança no próprio estilo de governar de Lula.  
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