Mendonça critica Bolsonaro, Wagner fala da ditadura e Lula celebra vitória
Segundo o diretor, o país viveu, na última década, uma inflexão autoritária que ainda reverbera na sociedade brasileira
O cineasta Kleber Mendonça Filho e a produtora Emilie Lesclaux comentaram, na noite de domingo (11), a vitória de O Agente Secreto no Globo de Ouro 2026 e defenderam o cinema como instrumento de expressão social e política. As declarações foram dadas a jornalistas após a cerimônia, realizada em Los Angeles.
Ao relacionar o momento político recente do Brasil ao papel da cultura no debate público, Kleber Mendonça Filho fez críticas diretas ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo o diretor, o país viveu, na última década, uma inflexão autoritária que ainda reverbera na sociedade brasileira.
“Há cerca de dez anos, o Brasil sofreu uma guinada muito drástica à direita, e esses tempos agora se foram, com o ex-presidente preso. Ele foi epicamente irresponsável ao não liderar o país. O cinema pode ser uma forma de expressar insatisfações que temos enquanto sociedade”, afirmou o cineasta.
Ditadura como tema ainda aberto, afirma Wagner Moura
Vencedor do prêmio de Melhor Ator em Filme de Drama, Wagner Moura também comentou o significado político e histórico da obra. Em conversa com jornalistas após a premiação, o ator declarou que a ditadura militar permanece como uma ferida aberta no país e defendeu a permanência do tema no cinema nacional.
No longa dirigido por Kleber Mendonça Filho, Moura interpreta um professor perseguido durante o regime militar. Para o ator, a narrativa dialoga diretamente com o presente. “Precisamos continuar fazendo filmes sobre a ditadura. Ela é uma ferida aberta no Brasil. Aconteceu há apenas 50 anos. Entre 2018 e 2022, tivemos um presidente de extrema-direita que representa fisicamente os ecos desse período”, afirmou.
Cinema, memória e disputa de narrativas
As declarações de Wagner Moura recolocam no centro do debate cultural a discussão sobre memória histórica, democracia e autoritarismo. Ao mencionar os “ecos da ditadura”, o ator apontou para tensões políticas e simbólicas que ainda atravessam a sociedade brasileira e influenciam a forma como o passado é narrado e disputado.
O reconhecimento de O Agente Secreto no Globo de Ouro projeta internacionalmente uma obra que aborda a perseguição política e a repressão estatal — temas que, no Brasil, seguem cercados por tentativas recorrentes de relativização e apagamento histórico.
Lula destaca prêmio como símbolo da valorização cultural
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também celebrou a vitória de Wagner Moura como Melhor Ator em Filme de Drama. Em publicação nas redes sociais, Lula destacou o feito como um marco para o cinema brasileiro e para a cultura nacional.
“O cinema brasileiro mais uma vez no topo do mundo. Sensacional a vitória do talentosíssimo Wagner Moura”, escreveu o presidente. Ele também ressaltou que a estatueta reconhece uma performance de excelência e simboliza um momento mais amplo de valorização dos artistas brasileiros.
Ao ecoar reflexões atribuídas ao próprio ator, Lula afirmou que o cinema nacional tem mobilizado a atenção e o respeito do público internacional, tornando-se um símbolo da retomada da valorização cultural no país. A manifestação presidencial reforça o tom de celebração institucional em torno do prêmio e a leitura do governo de que o reconhecimento internacional do cinema brasileiro representa um avanço na política cultural e no prestígio artístico do Brasil.
“Cultura e democracia caminham juntas”
No mesmo contato com a imprensa, Wagner Moura associou a produção cultural à existência de um ambiente democrático e ao papel do Estado na valorização do setor. Segundo ele, filmes, democracia e cultura são dimensões inseparáveis.
“A cultura e a democracia andam juntas. Depois de um período obscuro, o Brasil vive uma democracia em que podemos respirar, com um governo que entende a importância da cultura para o desenvolvimento do país. Democracia, cultura e cinema coexistem”, declarou o ator.
A fala reforça a ideia de que produções como O Agente Secreto não tratam apenas do passado, mas funcionam como instrumentos de reflexão pública sobre direitos, liberdades e os riscos da repetição de ciclos autoritários.
Itamaraty celebra vitória brasileira no Globo de Ouro
O Ministério das Relações Exteriores informou ter recebido “com satisfação” os prêmios conquistados por O Agente Secreto no 83º Globo de Ouro. Em nota oficial, o Itamaraty cumprimentou o diretor Kleber Mendonça Filho, a produtora Emilie Lesclaux, a equipe do filme e o ator Wagner Moura, destacando o alcance simbólico da premiação para o país.
Segundo o ministério, o resultado “reafirma a excelência do cinema brasileiro e sua capacidade de dialogar com públicos em todo o mundo”, ampliando a visibilidade internacional da cultura nacional.
Apoio institucional e diplomacia cultural
A nota do Itamaraty também ressalta que o órgão atua tradicionalmente na internacionalização do audiovisual brasileiro, promovendo obras nacionais em festivais e premiações no exterior. No caso específico de O Agente Secreto, o ministério informou ter apoiado a campanha do filme junto aos postos diplomáticos brasileiros.
A iniciativa, segundo o texto, integra uma estratégia de diplomacia cultural voltada à projeção internacional da produção artística brasileira e ao fortalecimento da presença do país no cenário cultural global.
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