Manter a Malhada é preservar a identidade
Preservar não é apenas guardar relíquias; é investir em consciência histórica para construir dias mais justos, equilibrados e humanos
Malhada é uma comunidade rural do município de Bocaina, Piauí.
A casa dos meus pais fica na Malhada.
Portanto, para mim e mais alguns, a Malhada é sinônimo de casa paterna/materna.
Pelo pouco que sei da história, meus avós paternos e maternos eram de outras plagas e, de forma nomade, foram parar na Malhada.
Lá, Manoel Vitalino, o pai do meu pai, construiu, em 1907 ou 1909, a nossa casa. A casa onde nasceram os 12 filhos de João Manoel e Zefinha.
Hoje, escorada, reformada, modificada, mas sua base está lá. Gloriosamente, resiste ao tempo.
No início dos anos 70, João Manoel construiu a “casa nova”, bem pertinho da antiga residência onde seus filhos nasceram.
A moradia passou a ser na “casa nova”, mas a "casa velha" não foi esquecida. Não deixou de ser usada. Passou a ser uma grande despensa de tudo o que se precisava na "casa nova".
João Manoel morreu em 1977. Zefinha resistiu até 2010. Seus filhos e netos tentam, a duras penas, preservar aquele recanto piauiense que conta um pouquinho da história daquela região, deste Estado e deste país.
Se João Manoel e Zefinha foram pequenos agricultores que subsistiram, seus filhos progrediram. Migraram para os grandes centros. Urbanizaram-se, ganharam algum dinheiro, e poucos conseguiram um letramento. Mas, dos netos, você não pode dizer o mesmo. Dos 28, quase todos têm formação superior.
Estamos em 2026. Com seus 117 anos, a “casa velha” resiste. Foram anos de trabalho, anos de seca, de enchentes, de choro e de alegria. Ela está lá, contando essas histórias.
Mas por que, depois de 117 anos, insistir com “uma coisa velha”? É por João Manoel e Zefinha, eles que herdaram aquele patrimônio e o sustentaram?
Não!
É porque preservar vestígios do passado é preservar a própria identidade. Monumentos, documentos, fotografias, tradições e memórias coletivas funcionam como espelhos: revelam de onde viemos e quais conquistas moldaram a sociedade atual. Ao manter vivos esses registros, cria-se uma base sólida para compreender processos históricos, culturais e sociais que explicam quem somos enquanto indivíduos e comunidade.
Ao cuidar da memória, construímos pontes entre gerações. O legado transmitido orienta escolhas e inspira transformações. Assim, preservar não é apenas guardar relíquias; é investir em consciência histórica para construir dias mais justos, equilibrados e humanos.
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