Economia

Lula identifica corretamente o inimigo do Brasil: Campos Neto

'O presidente do Banco Central não tem relação de respeito com o país, e não age sob os interesses nacionais', escreve o colunista Arnobio Rocha


Montagem Pensar Piauí Lula identifica corretamente o inimigo do Brasil: Campos Neto
Lula e Campos Neto

Por Arnóbio Rocha, advogado civilista e colunista, no 247

O grande colunista Zé Simão brincava/provocava o Clodovil: “na falta de piada nova, passo ferro na velha”, o que o irritava e, então, dava mais pontos para o humorista. Nelson Rodrigues fazia isso para provocar, inclusive, seus amigos, como Otto Lara Resende. Para desespero deste, nomeou uma famosa peça de: “Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas Ordinária”. Um dos personagens dizia: “O mineiro só é solidário no câncer”, como escreveu Otto Lara Resende.

Criar um contraponto é fundamental na política. O PT não seria enorme se não fosse o contraponto ao PSDB, a “herança maldita”. A extrema-direita cresceu com uma construção trágica: Tudo, menos o PT, o que acabou elegendo o pior de todos os seres humanos, Bolsonaro. Este, na presidência, dedicava todos os dias a atacar a esquerda, Lula e o PT em especial, o que foi bom para o próprio Lula.

O Banco Central

Agora, Lula tenta colar em Campos Neto o seu oposto, o que é uma tática importante no debate político e ideológico do Brasil. A “herança maldita” do Bolsonaro é justamente o maior sabotador do país, o Presidente do BC, que representa exatamente a ultradireita, sua face mais radical contra a democracia. Melhor dizendo, aquele que impede que a democracia seja plena, ao torpedear o programa econômico eleito nas eleições.

A inflexibilidade do neto de Bob Field objetivamente cria empecilhos para que o Brasil saia da crise, gere crescimento e desenvolvimento econômico e social. Por ser um BC uma espécie de “agência reguladora”, uma excrescência no modelo de Constituição do Brasil, que é rígida, durante o governo neoliberal de FHC, criou-se uma série de agências reguladoras para esvaziar o Estado. Elas foram facilmente capturadas pelo capital.

Essa contradição perdurou nos 12 anos de governos do PT (não considero que Dilma tenha sequer assumido em janeiro de 2015). As agências foram calos nos governos, mas o PT simplesmente não teve capacidade de nomear e gerir com seus quadros ou de seu campo. Fez uma espécie de terceirização, o maior exemplo talvez seja o da ANATEL.

Ao contrário, tanto Temer quanto Bolsonaro trataram de encher de gente deles, além de prolongarem os mandatos de conselheiros, alguns para além do próprio mandato do Presidente Lula.

No caso do Banco Central, que virou “agência” em fevereiro de 2021, é o mais grave caso de intervenção real e concreta contra um governo eleito. Como se pode conviver contra um sabotador?

O BC concentra um poder quase igual ao do Ministério da Fazenda, sem que o Presidente do BC tenha que prestar contas à sociedade, já que não é eleito. Nem o Presidente da República eleito o escolhe; apenas na metade do seu mandato é que haverá uma possível substituição.

Essa captura do Banco Central pelo mercado, de forma direta e inequívoca, é, no mínimo, esdrúxula. Ela atenta contra a democracia, em particular, o curioso caso de Campos Neto, um homem ligado umbilicalmente aos banqueiros e especuladores, definindo a taxa Selic, os fabulosos ganhos de parasitas, a definição da moeda e sua intervenção no câmbio.

Campos Neto é o BC independente não do governo Lula, mas do Brasil. Não tem nenhuma relação de respeito com o país, não age sob os interesses nacionais, não é técnico, é um político, neto de político. Agora se desmascara de vez desse disfarce de “independente” quando se vincula ao governador de São Paulo, um bolsonarista com MBA, mas milico e capitão, igual ao outro.

A mídia corporativa, patronal, trava uma guerra pelo próximo presidente do BC. Querem tirar o poder de Lula de indicar ao Senado um nome alinhado com o governo, ou pelo menos não refém do mercado. É um escândalo.

Lula fez muito bem em voltar à carga, pois há pelo menos três meses, uma série de movimentos no Congresso e na mídia vinculada aos banqueiros produz notícias e notas ruins para o governo.

É a economia, estúpido. O poder de definir câmbio e juros é justamente a soberania do Brasil.

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