"Lula é dos homens mais inteligentes que conheci", diz Tavares - a queridinha da internet
Maria da Conceição Tavares, uma economista de muito respeito, tem viralizado na internet
Foto: Divulgação
Economista que lecionou para diversas gerações de profissionais na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Maria da Conceição Tavares viralizou no Twitter, onde trechos de suas aulas e entrevistas têm sido compartilhados.
depois de duas cervejas eu discuto economia assim pic.twitter.com/LzIELpWtO1
— t (@problematizol) July 4, 2020
Com 91 anos, a professora universitária ganhou a atenção de usuários da rede social por conta do estilo enérgico, irreverente e provocador em sala de aula, além de declarações incisivas de crítica ao capitalismo global e à história da economia brasileira.
"Independente de quem? ... O nosso Banco Central é independentíssimo faz o que dá na telha" ???????? Maria da Conceição Tavares pic.twitter.com/3W63icK1Wf
— Pedro Rossi (@pedrolrossi) February 10, 2021
Entre as pessoas que acompanham e comentam os vídeos estão admiradores que já conhecem o trabalho da professora. Outro grupo, também grande, é formado por jovens que descobriram Tavares com os tweets e acham carismático seu estilo na sala de aula.
Por que a questão agrária aqui, que é uma merda, nunca deu boda nenhum? pic.twitter.com/hDPTlH9rCB
— Acervo Maria da Conceição Tavares (@acervo_tavares) October 29, 2021
A economista Laura Carvalho, professora na USP (Universidade de São Paulo) e autora de “Valsa brasileira: do boom ao caos econômico”, escreveu no Twitter: “Quer dizer que a internet descobriu nossa querida Conceição? Já tive aula com ela, morram de inveja”.
"Ensinar é exercer poder político!"
— Acervo Maria da Conceição Tavares (@acervo_tavares) October 26, 2021
Aqueles que veem a educação como perigo, tentarão censurá-la em crimes políticos. Tivemos aí hoje como exemplo, a invasão do canal do IE da Unicamp pic.twitter.com/zLKpd11gYy
Em outro comentário, um jornalista, compartilhando trecho de uma aula em que Tavares fala e gesticula com indignação sobre a Inglaterra, disse: “tô trabalhando pra ter essa energia daqui a 30 anos”. O vídeo viralizou em meio à semana do Dia do Professor, em 15 de outubro.
E até que ele bata o mercado nos cornos pic.twitter.com/NrxfH8ij3Z
— Acervo Maria da Conceição Tavares (@acervo_tavares) October 25, 2021
Segundo a plataforma Google Trends, que mede as procuras no site de pesquisa, o interesse por Maria da Conceição Tavares cresceu na metade de outubro em relação aos meses anteriores, embora já tenha atingido outros picos em fevereiro de 2021 e em 2020.
Mas com licença, socialista é a sua avó ??? porque a primeira coisa que o senhor fez foi me fuder ? logo assim não vamos para lugar nenhum ? pic.twitter.com/TonnOb3RbH
— Acervo Maria da Conceição Tavares (@acervo_tavares) October 23, 2021
Nem todos os comentários sobre a professora, porém, são elogiosos. No Twitter, parte dos usuários critica posições de Tavares em relação a programas como o Plano Real e o Bolsa Família — ela foi contrária a ambos no passado — e a seu estilo considerado performático.
A senhora vai aguentar 1h30 sem fumar? pic.twitter.com/fR9B40HocN
— Acervo Maria da Conceição Tavares (@acervo_tavares) October 22, 2021
Elogios a Lula
Segue-se a transcrição de um trecho de uma entrevista que Tavares concedeu ao jornal português Público em 2010:
"Público – Nessa faixa média alta, o Lula é frequentemente descrito como um ignorante, ou um populista.
MCT – Primeiro, não é populista porque é do povo. Populista seria um cara da elite que estivesse manipulando o povo. Ele ascendeu do povo, e foi sendo feito pelo povo. Depois, ignorante, coisa nenhuma. O Lula sabe mais do Brasil do que ninguém. E sabe mais de economia aplicada, prática, do que ninguém. Já é candidato desde 1989. Então, na primeira derrota fez o Instituto de Cidadania, uma espécie de ONG, e convidava todos os intelectuais. Eu conhecia-o de vista, mas aí passei a ser assessora dele. Eu, uma série de economistas progressistas, filósofos, sociólogos.
Público – Era uma espécie de academia informal?
MCT – Claro. De maneira que ele fez uma “universidade” que durou de 1989 a 2002.
Público – Como “aluno”, como era?
MCT – Ah, brilhante, brilhante. Tem uma memória prodigiosa. E quando havia discussão académica e ele percebia que as questões estavam resvalando, não deixava. Ele vai no gume. Tem um sentido de oportunidade muito afiado, uma mente muito lógica. Isso é que é impressionante. Tem um coração popular, uma emoção popular, mas a cabeça dele é totalmente lógica. É dos homens mais inteligentes que conheci. Se não o mais.
Público - Diria que o Lula é talvez o homem mais inteligente que conheceu?
MCT – Sem dúvida. E não apenas politicamente. É uma inteligência nata. É um gênio do povo. Nós tivemos um gênio do povo. Se não, não teria chegado lá. Você acha que alguém vindo de onde ele veio, com as dificuldades que teve, chega a presidente? Não. Ele é um gênio do povo, mesmo, e impressiona qualquer um.
Público – A senhora tem uma frase que é: “O Lula é o maior intelectual orgânico do Brasil.”
MCT – Os intelectuais como eu são clássicos. E ele é orgânico. Interpreta e representa organicamente o povo brasileiro."
Quem é Maria da Conceição Tavares
Nascida em Portugal, Maria da Conceição Tavares mudou-se para o Brasil em 1954 e naturalizou-se brasileira. Formada em matemática, fez a segunda graduação em economia na UFRJ e nos anos seguintes se dedicou à docência e ao debate público.
Além de ter sido professora, Tavares fez parte do governo de Juscelino Kubitschek e trabalhou no BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) e no Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) entre os anos 1950 e 1970.
Influenciada por Celso Furtado, Tavares estudou o desenvolvimento nas economias periféricas, como o Brasil. Tem pensamento vinculado ao desenvolvimentismo, defendendo que o Estado lidere a indução ao investimento e no planejamento do desenvolvimento econômico do país.
Em 1974, foi presa nas dependências do DOI-Codi, órgão de repressão da ditadura militar (1964-1985). A prisão durou alguns dias. Segundo o livro “Pioneiras da ciência no Brasil”, ela afirmava para os militares que a seguravam na prisão: “eu sou uma professora, eu sou uma professora”.
Também na ditadura, ficou conhecida pelas posições em defesa da democracia e pelas críticas à política econômica do regime militar. Em 1977, ajudou a fundar o Movimento Democrático dos Economistas para fazer oposição ao pensamento conservador na área.
Em 1994, filiou-se ao PT, partido pelo qual foi eleita deputada federal. Em seu mandato, foi representante da sigla na Comissão de Economia e Finanças, onde fez forte oposição às reformas propostas por Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Depois, não concorreu mais à eleição.
Nos governos do PT, fez críticas à criação do Bolsa Família por ser a favor de uma política universal (e não focalizada, como o programa é hoje). Em 2016, manifestou-se contra a aprovação da PEC do Teto dos gastos públicos, aprovada no governo de Michel Temer (MDB).
Entre seus livros, estão “Da substituição das importações ao capitalismo financeiro” (1972), “Acumulação de capital e industrialização no Brasil” (1986), “Poder e dinheiro” (1997) e “(Des)ajuste global e modernização conservadora” (1993).
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