Política

Lula avalia fim da obrigatoriedade de autoescolas para tirar CNH

Proposta do Ministério dos Transportes prevê que candidatos possam se preparar por conta própria ou com instrutores autônomos, sem vínculo com autoescolas.


Roberto Dziura Jr/AEN Lula avalia fim da obrigatoriedade de autoescolas para tirar CNH
CNH

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estuda uma mudança significativa no processo de obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). A proposta, elaborada pelo Ministério dos Transportes, prevê o fim da obrigatoriedade de frequentar autoescolas para que o cidadão possa obter a licença para dirigir. A iniciativa foi confirmada pelo ministro dos Transportes, Renan Filho (MDB), em entrevista à Folha de S. Paulo.

Pelo novo modelo, o candidato à CNH poderá escolher como se preparar para os exames teórico e prático exigidos pelo Código de Trânsito Brasileiro. Entre as alternativas estariam o estudo autodidata, a contratação de instrutores autônomos credenciados ou ainda a permanência nas autoescolas, que passariam a ser uma opção, e não uma exigência.

“A autoescola vai permanecer, mas, ao invés de ser obrigatória, ela pode ser facultativa”, explicou o ministro. “O Brasil é um dos poucos países que ainda obriga o cidadão a cumprir uma carga horária mínima de aulas antes de fazer a prova.”

Redução de custos e inclusão social

Atualmente, o custo médio para tirar a CNH no Brasil varia entre R$ 3 mil e R$ 4 mil. Com a flexibilização do modelo, o Ministério dos Transportes estima que o valor possa cair em mais de 80%. Segundo Renan Filho, o alto custo, a burocracia e o tempo exigido para a obtenção da carteira são entraves que afastam milhões de brasileiros do direito de dirigir.

A proposta também mira em ampliar o acesso à habilitação entre as populações de baixa renda e em combater desigualdades de gênero. Dados do ministério apontam que 60% das mulheres em idade de tirar a CNH ainda não possuem o documento. “Quando a família consegue o dinheiro, geralmente escolhe tirar a carteira dos meninos. Isso gera uma exclusão de gênero significativa”, afirmou o ministro.

A proposta poderá ser implementada por meio de uma revisão da resolução do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), sem necessidade de aprovação no Congresso Nacional.

Novo modelo: mais flexível e moderno

A nova regulamentação manteria a exigência de aprovação nos exames oficiais, mas permitiria que o candidato escolha livremente como será preparado. A utilização de veículos próprios para o aprendizado e a contratação de instrutores independentes estão entre as mudanças previstas. Ensinar a dirigir em vias públicas continuará restrito a profissionais credenciados.

“O cidadão vai ter que passar na prova, vai ter que demonstrar que sabe dirigir, mas ele vai estudar no mundo moderno”, disse Renan Filho. O ministro citou países como Reino Unido e Estados Unidos, onde não há obrigatoriedade de formação em autoescolas para maiores de idade.

Impactos no setor e na economia

A proposta pode gerar resistência entre empresários do setor. A Federação Nacional das Autoescolas (Feneauto) estima que existam mais de 15 mil autoescolas no país, movimentando cerca de R$ 12 bilhões por ano. Para o ministro, a nova lógica permitirá que permaneçam no mercado aquelas empresas que forem mais eficientes.

“As autoescolas não vão acabar. Vai continuar quem oferecer um serviço de qualidade. Mas eu sou contra o Estado obrigar o cidadão a fazer algo que ele poderia escolher”, afirmou.

O projeto começará pelas categorias A (motocicletas) e B (veículos de passeio), que representam a maior parte das habilitações no país. De acordo com o Ministério dos Transportes, em cidades de médio porte, cerca de 40% da população dirige sem habilitação. “A CNH custa quase o preço de uma moto usada”, comentou o ministro.

Formação de motoristas profissionais

O modelo atual também é apontado como um entrave à formação de motoristas profissionais, especialmente nas categorias de veículos pesados. Como a legislação exige que o condutor passe primeiro pelas categorias comuns antes de progredir para carteiras mais específicas, há uma defasagem no ingresso de novos profissionais no mercado.

“Se alguém consegue tirar a primeira carteira aos 30 anos, quanto tempo leva até ele estar apto a dirigir um caminhão com carga inflamável?”, questionou Renan Filho.

Sem custos ao Tesouro

Segundo o governo, a proposta não traz impacto financeiro ao Tesouro Nacional. O ministro defende que a medida tem potencial para transformar a formação de condutores no país, com mais acesso, menos burocracia e maior eficiência. “É como se para entrar em uma universidade pública alguém dissesse que só poderia fazer isso depois de cursar uma escola privada obrigatória. Não faz sentido”, comparou.

A expectativa é que a proposta seja apresentada ao presidente Lula nas próximas semanas. Se aprovada, a mudança poderá representar um novo marco na política de trânsito brasileira.

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