Lula adverte Trump: ofensiva dos EUA na Venezuela ameaça desestabilizar toda a América Latina
O alerta ocorre após Trump confirmar que autorizou a CIA a realizar operações secretas para derrubar o governo de Nicolás Maduro
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende alertar Donald Trump, em uma reunião bilateral aguardada com expectativa, de que qualquer ofensiva militar dos Estados Unidos contra a Venezuela pode desestabilizar toda a América Latina e fragilizar governos democráticos da região. Segundo apuração da Folha de S.Paulo, Lula levará uma mensagem direta: um ataque ao território venezuelano abriria espaço para o avanço do crime organizado e do narcotráfico, além de provocar desordem política e humanitária.
O alerta ocorre após Trump confirmar que autorizou a CIA a realizar operações secretas para derrubar o governo de Nicolás Maduro — medida que reacende o histórico de intervenções norte-americanas no continente. Paralelamente, Washington deslocou navios de guerra para o mar do Caribe, sob o argumento de combater o “narcoterrorismo”, gesto que evoca os tempos de ingerência militar dos EUA em países latino-americanos durante o século XX.
Para o governo brasileiro, a escalada norte-americana representa uma ameaça direta à estabilidade regional e fere princípios de soberania e autodeterminação dos povos, fundamentos da política externa defendida por Lula desde o início de sua trajetória presidencial.
Diplomacia ativa e altiva
O Itamaraty reforça que o Brasil vem atuando para “descontaminar” a agenda bilateral com Washington de disputas ideológicas, preservando o diálogo pragmático. A reunião entre Lula e Trump deve ocorrer ainda este ano, possivelmente durante a Cúpula das Américas, na República Dominicana, em dezembro.
Lula pretende reafirmar a via diplomática como única solução legítima para a crise venezuelana. Em telefonema recente com Trump, o presidente brasileiro já havia destacado a importância do diálogo político e o respeito à soberania do país vizinho.
Brasília também vê com reservas a realização da Cúpula das Américas, após o governo dominicano, sob pressão dos EUA, decidir não convidar Cuba, Venezuela e Nicarágua. O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, anunciou boicote ao evento, em protesto contra a exclusão.
Segundo diplomatas brasileiros, a postura dos EUA repete a política de sanções e isolamento que apenas agravou a crise humanitária sem resultados políticos concretos. Para o Planalto, a oposição venezuelana liderada por María Corina Machado — recém-premiada com o Nobel da Paz — não representa força real dentro do país, e a ausência de alternativas sólidas reforça a necessidade de diálogo e eleições livres.
CIA e a volta da doutrina do golpe
Reportagem da BBC News revelou que Trump concedeu à CIA uma “presidential finding”, autorização rara que permite à agência realizar operações letais, espionagem e sabotagem em território estrangeiro. A decisão reabre o manual de intervenções clandestinas de Washington, com histórico de golpes e assassinatos políticos na Guatemala (1954), Chile (1973) e Panamá (1989).
Ex-agentes ouvidos pela emissora afirmam que as ações podem incluir ataques seletivos contra autoridades venezuelanas e sabotagem da infraestrutura energética. Especialistas apontam que Trump tenta reviver a política de “mudança de regime”, impondo uma administração submissa aos interesses dos EUA.
Governos progressistas da região — entre eles Brasil, Colômbia, México e Chile — consideram a ofensiva uma ameaça à paz continental. “Nenhum país tem o direito de impor pela força o seu modelo político aos outros”, declarou uma fonte do Itamaraty.
María Corina Machado e o alinhamento com Washington
Em entrevista à Folha de S.Paulo, María Corina Machado elogiou abertamente a estratégia militar de Trump e defendeu o uso da força estrangeira para “acelerar a queda de Maduro”. A opositora, que vive em local não revelado, afirmou que o Brasil deveria “dizer a Maduro que chegou a sua hora de ir embora”.
A retórica de Corina reflete o discurso norte-americano que rotula governos contrários a seus interesses como “narcoterroristas”, justificando intervenções. Analistas destacam a contradição entre o discurso da nova Nobel da Paz e o princípio de defesa dos direitos humanos associado à premiação.
Reação regional em defesa da soberania
O presidente colombiano Gustavo Petro fez um apelo à unidade latino-americana diante da escalada militar no Caribe. “Venezuela é dos venezuelanos”, afirmou em mensagem publicada na rede X, pedindo uma resposta conjunta à “vontade bárbara de lançar mísseis contra pessoas desarmadas”.
Petro compartilhou um vídeo de Lula reforçando o mesmo posicionamento: “O povo venezuelano é dono do seu destino. Não é nenhum presidente estrangeiro que deve decidir o futuro da Venezuela ou de Cuba.”
O alinhamento entre Brasil e Colômbia reforça o compromisso da Celac de manter a América Latina e o Caribe como zona de paz, princípio firmado em Havana em 2014.
A nova ofensiva imperial
Analistas avaliam que a autorização de Trump à CIA representa o esforço de reestabelecer a hegemonia militar dos EUA sobre a América do Sul, agora com o pretexto de combater o narcotráfico. Na prática, trata-se de uma tentativa de recolonização do continente, ameaçando conquistas sociais e energéticas de países que resistem à influência norte-americana.
Mesmo sob sanções, Maduro mantém apoio popular e alianças estratégicas com Rússia, China e Irã. Diante disso, Lula reafirma o papel do Brasil como mediador da paz e defensor da soberania regional, em contraposição à política intervencionista de Washington.
Ao advertir Trump, Lula busca não apenas evitar uma guerra, mas reafirmar a liderança diplomática do Brasil e a visão de uma América Latina soberana, unida e livre de ingerências externas. A escalada militar no Caribe reacende o velho dilema entre o intervencionismo e a autodeterminação — e o continente volta a ser palco de disputa entre a diplomacia da paz e a política da força.
Deixe sua opinião: