Oscar de Barros

Joga pedra na Neymar, joga b@sta na Neymar. Maldita Neymar!

Neymar números ignorados, cobrança desproporcional e o papel contemporâneo de “Geni”


IA Joga pedra na Neymar, joga b@sta na Neymar. Maldita Neymar!
Neymar, a Geni fo futebol

Geni E O Zepelim, Chico Buarque

        De tudo que é nego torto/Do mangue, do cais, do porto/Ela já foi namorada

O seu corpo é dos errantes/Dos cegos, dos retirantes/É de quem não tem mais nada

Dá-se assim desde menina/Na garagem, na cantina/Atrás do tanque, no mato

É a rainha dos detentos/Das loucas, dos lazarentos/Dos moleques do internato

E também vai amiúde/Com os velhinhos sem saúde/E as viúvas sem porvir

Ela é um poço de bondade/E é por isso que a cidade/Vive sempre a repetir

Joga pedra na Geni/Joga pedra na Geni/Ela é feita pra apanhar/Ela é boa de cuspir/Ela dá pra qualquer um/Maldita Geni

Um dia surgiu, brilhante/Entre as nuvens, flutuante/Um enorme zepelim

Pairou sobre os edifícios/Abriu dois mil orifícios/Com dois mil canhões assim

A cidade apavorada/Se quedou paralisada/Pronta pra virar geléia

Mas do zepelim gigante/Desceu o seu comandante/Dizendo: Mudei de idéia

Quando vi nesta cidade/Tanto horror e iniquidade/Resolvi tudo explodir

Mas posso evitar o drama/Se aquela formosa dama/Esta noite me servir

Essa dama era Geni/Mas não pode ser Geni/Ela é feita pra apanhar/Ela é boa de cuspir/Ela dá pra qualquer um/Maldita Geni

Mas de fato, logo ela/Tão coitada, tão singela/Cativara o forasteiro

O guerreiro tão vistoso/Tão temido e poderoso/Era dela prisioneiro

Acontece que a donzela/E isso era segredo dela/Também tinha seus caprichos

E a deitar com homem tão nobre/Tão cheirando a brilho e a cobre/Preferia amar com os bichos

Ao ouvir tal heresia/A cidade em romaria/Foi beijar a sua mão

O prefeito de joelhos/O bispo de olhos vermelhos/E o banqueiro com um milhão

Vai com ele, vai Geni/Vai com ele, vai Geni/Você pode nos salvar/Você vai nos redimir/Você dá pra qualquer um/Bendita Geni

Foram tantos os pedidos/Tão sinceros, tão sentidos/Que ela dominou seu asco

Nessa noite lancinante/Entregou-se a tal amante/Como quem dá-se ao carrasco

Ele fez tanta sujeira/Lambuzou-se a noite inteira/Até ficar saciado

E nem bem amanhecia/Partiu numa nuvem fria/Com seu zepelim prateado

Num suspiro aliviado/Ela se virou de lado/E tentou até sorrir

Mas logo raiou o dia/E a cidade em cantoria/Não deixou ela dormir

Joga pedra na Geni/Joga bosta na Geni/Ela é feita pra apanhar/Ela é boa de cuspir/Ela dá pra qualquer um/Maldita Geni

Lançada em 1978 no musical Ópera do Malandro, a canção “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque, permanece como uma das mais contundentes críticas à hipocrisia social na música brasileira. A obra escancara o comportamento de uma sociedade que condena, humilha e, quando convém, utiliza — para depois descartar.

A história de Geni e a hipocrisia coletiva

Na narrativa, Geni é uma personagem marginalizada, alvo constante de violência simbólica e física. O refrão — conhecido por sua brutalidade — sintetiza esse ódio coletivo. A cidade “respeitável” a transforma em bode expiatório.

A trama ganha tensão quando um zepelim ameaça destruir tudo. Diante do risco, os mesmos que a desprezavam — prefeito, bispo e banqueiro — passam a implorar por sua ajuda. Geni aceita, salva a cidade, mas, no dia seguinte, volta a ser atacada. A gratidão desaparece. A hipocrisia se revela estrutural.

Inspirada na Ópera dos Três Vinténs, a peça adapta o cenário para o Brasil dos anos 1940, usando alegoria para driblar a censura da ditadura e expor mecanismos sociais que permanecem atuais.

Neymar e o papel contemporâneo de “Geni”

Décadas depois, a lógica descrita por Chico parece ecoar no tratamento dado a Neymar. O atacante, um dos maiores nomes da história recente do futebol brasileiro, tornou-se alvo constante de críticas que estão ultrapassando o campo esportivo.

O que chama atenção não é a crítica em si — legítima no esporte —, mas a intensidade e o prazer com que parte da opinião pública e até setores da imprensa parecem reagir aos seus erros.

Há uma torcida explícita pelo fracasso. Cada drible que não dá certo vira comemoração. Cada atuação abaixo do esperado é tratada como confirmação de uma narrativa pré-estabelecida.

Números ignorados e cobrança desproporcional

Os dados recentes mostram um jogador ainda decisivo: nove gols e quatro assistências nos últimos 13 jogos. Números que, em qualquer análise objetiva, sustentariam protagonismo.

Ainda assim, o argumento se desloca: o nível dos adversários, o contexto das partidas, a exigência de que ele seja sempre o responsável por “resolver tudo”. A régua parece móvel — e sempre mais alta para ele.

A pergunta que fica é: Neymar precisa ser perfeito para ser aceito?

A lógica da escolha do alvo

Assim como Geni, Neymar passa a ocupar um lugar simbólico: o de personagem sobre o qual se projeta frustração, irritação e julgamento moral. Quando convém, é exaltado. Quando não, torna-se alvo fácil.

A crítica esportiva se mistura com algo mais profundo: a necessidade de eleger culpados.

Entre a crítica e o linchamento simbólico

Não se trata de blindar o jogador. Nem de negar falhas. Mas de reconhecer quando a crítica deixa de ser análise e passa a ser perseguição.

A possibilidade de ausência de Neymar em uma Copa do Mundo, longe de ser apenas uma questão técnica, expõe um dado inquietante: há quem comemore essa hipótese.

E talvez seja aí que a metáfora de Chico Buarque se torne mais atual do que nunca.

Porque, quando a crítica vira prazer pelo fracasso, o problema já não está no jogador. 

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