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Flávio Bolsonaro sintetiza o futuro, e o PT ainda faz propaganda do passado, diz ex-marqueteiro de Lula

O alerta de um dos criadores do "Lula lá" à campanha de Lula


Reprodução Flávio Bolsonaro sintetiza o futuro, e o PT ainda faz propaganda do passado, diz ex-marqueteiro de Lula
O publicitário Paulo de Tarso liderou memoráveis campanhas de Lula

O portal Pensar Piauí reproduz a seguir conteúdo baseado em material originalmente publicado pela BBC News Brasil. A entrevista foi concedida ao veículo pelo publicitário e estrategista político Paulo de Tarso da Cunha Santos, que há mais de quatro décadas atua em campanhas eleitorais no país. O conteúdo foi adaptado para formato de texto corrido, mantendo as principais ideias e análises apresentadas pelo marqueteiro sobre o cenário político brasileiro e internacional.

O impacto do avanço da direita global

O publicitário avalia que o atual cenário internacional, marcado pelo crescimento de movimentos de direita associados ao projeto Maga (Make America Great Again), ligado ao ex-presidente americano Donald Trump, tem influenciado diretamente a política brasileira. Segundo ele, esse ambiente global alterou a dinâmica política interna e interferiu na popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Para Paulo de Tarso, a ascensão dessa corrente política reduziu a força de argumentos tradicionalmente utilizados por Lula, especialmente aqueles relacionados ao multilateralismo e à defesa de uma ordem internacional baseada na cooperação entre países. Na leitura do estrategista, o presidente enfrenta hoje um ambiente político mais adverso e se encontra pressionado pela nova configuração do debate público.

Cansaço com a política tradicional

Na avaliação do marqueteiro, parte do eleitorado demonstra um certo esgotamento com o ritmo da democracia liberal. Programas administrativos e obras públicas, que muitas vezes levam anos para serem concluídos, acabam gerando a sensação de lentidão nas mudanças.

Esse sentimento, segundo ele, contribui para diminuir o impacto político de iniciativas governamentais que, em outros momentos, seriam capazes de mobilizar mais apoio popular. A propaganda política tradicional do PT, historicamente baseada na valorização de políticas sociais e programas de inclusão, já não produz o mesmo efeito que teve em campanhas anteriores.

Pesquisas indicam disputa apertada

O diagnóstico apresentado por Paulo de Tarso encontra eco em pesquisas recentes. Levantamento da Genial/Quaest divulgado em março aponta um cenário de disputa competitiva entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro. Dependendo do cenário analisado, os dois aparecem tecnicamente empatados.

Em uma eventual disputa de segundo turno, a pesquisa indica igualdade nas intenções de voto, com ambos registrando 41%. Os dados também mostram crescimento da desaprovação ao governo: 51% dos entrevistados dizem desaprovar a atual gestão, enquanto 44% afirmam aprová-la.

Mesmo entre beneficiários do Bolsa Família, base social historicamente associada ao petismo, aparecem sinais de desgaste. Entre esse público, 38% dizem desaprovar o governo. Já medidas como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda ainda não produziram impacto significativo na renda de grande parte dos entrevistados.

Flávio Bolsonaro e o discurso de futuro

Na interpretação do estrategista, o crescimento político de Flávio Bolsonaro está ligado à capacidade de simbolizar dois elementos importantes para parte do eleitorado: a ideia de renovação política e a continuidade do sentimento antipetista.

Segundo Paulo de Tarso, campanhas eleitorais não podem se limitar à prestação de contas do que já foi realizado por um governo. Para ele, é fundamental apresentar uma narrativa de futuro capaz de mobilizar expectativas e desejos do eleitorado.

O que define uma campanha vitoriosa

Com mais de quarenta anos de atuação no marketing político, Paulo de Tarso defende que o conceito de vitória em uma campanha eleitoral vai além do resultado imediato nas urnas.

Para ele, uma campanha pode ser considerada bem-sucedida mesmo quando não resulta na vitória eleitoral, desde que fortaleça politicamente o candidato para disputas futuras. Esse processo é chamado por estrategistas de “credenciamento político”.

Ele cita como exemplo a trajetória de Lula, que disputou três eleições presidenciais consecutivas antes de conquistar a vitória em 2002. Ao longo desse percurso, o então candidato foi consolidando sua imagem junto ao eleitorado até ser percebido como preparado para governar o país.

Internet, televisão e o mix de comunicação

O publicitário relativiza a ideia de que as redes sociais tenham se tornado o fator decisivo nas eleições. Embora reconheça a importância da internet na ampliação do alcance das campanhas, ele afirma que nenhum projeto político majoritário chegou ao poder exclusivamente por meio das redes digitais.

Segundo ele, campanhas bem-sucedidas dependem de um mix de comunicação, envolvendo televisão, rádio, internet e outros meios. Em disputas decididas por diferenças muito pequenas de votos, um erro estratégico em qualquer um desses canais pode ser suficiente para comprometer o resultado final.

O papel dos debates na era dos cortes

Os debates entre candidatos continuam sendo, na visão do estrategista, momentos centrais das campanhas eleitorais. No entanto, a dinâmica desses eventos mudou com o avanço das redes sociais.

Hoje, candidatos frequentemente participam dos debates pensando nos trechos curtos que poderão circular posteriormente na internet. Esses cortes ampliam o alcance das falas e ajudam a transformar determinados momentos em peças virais de comunicação política.

O jingle histórico “Lula Lá”

Paulo de Tarso também relembra um dos episódios mais marcantes de sua trajetória profissional: a criação do jingle “Lula lá”, composto para a campanha presidencial de 1989.

Segundo ele, a música foi pensada inicialmente para mobilizar a militância petista, funcionando quase como um canto coletivo de campanha. Com o tempo, acabou se tornando um dos símbolos mais conhecidos da comunicação política no Brasil.

O futuro político do país

Ao olhar para o futuro, o estrategista avalia que o Brasil se aproxima do final da chamada “era Lula”. Para ele, o país precisará iniciar um novo ciclo político baseado em um projeto nacional mais amplo.

Na sua visão, o Brasil possui condições de construir um projeto de desenvolvimento ambicioso, semelhante ao que permitiu à China retirar centenas de milhões de pessoas da pobreza. Para isso, afirma, será necessário investir de forma decisiva em educação, tecnologia e planejamento estratégico de longo prazo.

Democracia precisa de direita e de diálogo

Paulo de Tarso também defende que uma democracia saudável precisa conviver com diferentes correntes ideológicas. Para ele, não é possível imaginar um sistema democrático sem a existência de uma direita política estruturada.

Ao mesmo tempo, alerta que uma direita radical que busque eliminar seus adversários políticos representa uma ameaça ao próprio funcionamento democrático. Na avaliação do publicitário, o país precisa reduzir a polarização extrema e criar espaço para um debate político mais amplo sobre o futuro nacional.

A disputa eleitoral que vem pela frente

Apesar das dificuldades apontadas no cenário político atual, o estrategista acredita que Lula ainda possui condições de vencer a próxima eleição presidencial. Na sua análise, porém, essa vitória dificilmente ocorrerá de forma tranquila.

Para Paulo de Tarso, a campanha precisa ser planejada desde o início considerando a possibilidade de uma disputa longa, que provavelmente se estenderá até o segundo turno. Preparar o eleitorado para esse cenário, afirma, será fundamental para evitar frustrações e manter a mobilização política ao longo de toda a campanha.

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