Exoneração de aliado de Ciro Nogueira antes de operação gera suspeita de vazamento
Saída do secretário ligado a Ciro Nogueira ocorreu dias antes da operação que mira esquema bilionário de fraude e lavagem de dinheiro no Piauí.
A exoneração de Victor Linhares de Paiva, então secretário municipal de Articulação Institucional de Teresina, ocorrida dois dias antes da deflagração da Operação Carbono Oculto 86, despertou desconfiança na Polícia Civil do Piauí. Os investigadores suspeitam que ele possa ter tido acesso antecipado a dados sigilosos sobre a operação, que foi desencadeada na quarta-feira (5) para desarticular um esquema de lavagem de dinheiro e fraudes financeiras vinculado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). O grupo teria movimentado cerca de R$ 5 bilhões por meio de fintechs e empresas de fachada.
Ligado politicamente ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), Victor Linhares deixou o cargo na segunda-feira (3), por decisão assinada pelo prefeito de Teresina, Silvio Mendes (União Brasil), um dos principais aliados de Ciro no estado.
O governo do Piauí, sob a gestão de Rafael Fonteles (PT), determinou a abertura de um inquérito para apurar se houve vazamento de informações sobre a operação. Em nota, a Prefeitura de Teresina informou que a exoneração “teve caráter técnico e político” e já estava planejada havia meses. O cargo foi assumido pelo deputado federal Júlio Arcoverde (PP).
As suspeitas de vazamento se intensificaram depois que a polícia constatou que dois empresários investigados — Haran Santhiago Girão Sampaio e Danillo Coelho de Sousa — viajaram, respectivamente, para São Paulo e Brasília na véspera da operação.
Durante o cumprimento dos mandados de busca e apreensão, os agentes encontraram caixas de relógio vazias nas residências dos investigados, o que sugere que bens de alto valor possam ter sido removidos e ocultados às pressas.
De acordo com a Secretaria de Segurança Pública do Piauí, a investigação revelou uma rede complexa de empresas de fachada, fundos de investimento e fintechs usada para disfarçar a origem ilícita dos recursos. Parte dessas transações passava pelo BK Bank, instituição financeira também sob investigação da Polícia Federal e do Ministério Público de São Paulo.
Conforme a apuração da Polícia Civil, Victor Linhares teria recebido R$ 230 mil de Haran Sampaio, ex-dono da rede de postos HD, considerada o núcleo do esquema no estado. A quantia foi transferida para uma conta do ex-secretário no BK Bank. Por esse motivo, ele deve ser chamado a prestar depoimento nos próximos dias. Até o momento, Linhares não foi localizado em sua residência e não respondeu aos contatos da imprensa.
A relação próxima entre Victor Linhares e Ciro Nogueira também passou a ser alvo de questionamentos. Linhares foi assessor de Ciro entre 2018 e 2019 e atuou na liderança do Progressistas no Senado em 2020. Além disso, o senador é padrinho de uma das filhas do ex-secretário. Até a publicação desta matéria, Ciro não havia se manifestado.
Em reportagem publicada em julho, a revista piauí revelou que Linhares recebeu R$ 625 mil do empresário Fernando Oliveira Lima, conhecido como Fernandim OIG, ligado ao setor de apostas online e também próximo de Ciro Nogueira.
Entre dezembro de 2023 e setembro de 2024, o ex-secretário realizou uma transferência de R$ 35 mil para a conta pessoal do senador. Questionado na ocasião, Ciro afirmou que o valor se referia ao reembolso de uma reserva de hotel em Capri, na Itália, e que os R$ 625 mil seriam resultado da venda de um relógio de luxo entre o empresário e o ex-assessor.
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