ESCÁRNIO: Câmara de SP queria homenagear cabeleireiro de Michelle. Para quer serve a direita brasileira?
A proposta justificava a homenagem com base na “relevância de sua trajetória como referência nacional no setor da beleza”
Na última semana, a Câmara Municipal de São Paulo colocou em pauta um projeto para conceder o título de Cidadão Paulistano a Roger Ajouri, cabeleireiro de Michelle Bolsonaro. A proposta, originada na Comissão de Educação, Cultura e Esportes, presidida por parlamentar do PL, e relatada por vereadora do Novo, justificava a homenagem com base na “relevância de sua trajetória como referência nacional no setor da beleza”. Contudo, não houve quórum suficiente para que o projeto fosse votado.
A crítica da oposição não se fez esperar: defenderam que homenagear alguém unicamente por sua ligação familiar política, sem qualquer fato concreto de serviço prestado ao município, era um escárnio à própria decência institucional. “Estamos contra homenagear o Roger porque ele é cabeleireiro da Michelle Bolsonaro. Não prestou nenhum serviço para a cidade de São Paulo”, afirmou a vereadora Silvia da Bancada Feminista, do PSOL.
Esse episódio revela uma lógica recorrente — e muitas vezes vazia — da direita parlamentar no Brasil: medidas simbólicas que elevam figuras próximas ao círculo de poder, em vez de priorizar temas estruturais. Se isso ocorre na Câmara Municipal de São Paulo, não é difícil encontrar paralelos nos âmbitos estaduais e federal.
Casos representativos de propostas simbólicas ou de baixo alcance da direita brasileira
Baixa taxa de conversão dos projetos de Eduardo Bolsonaro
Segundo levantamento da A Pública, nos mais de dez anos de atuação parlamentar, das 116 proposições (entre projetos de lei, decretos legislativos e emendas constitucionais) protocoladas por Eduardo Bolsonaro, apenas três tornaram-se leis. Essa proporção minúscula revela que boa parte das propostas são instrumentos de marketing político ou gestos simbólicos, e não iniciativas com viabilidade parlamentar concreta.Projetos de cunho moral / simbólico, como o PL 1904/2024 (antiaborto)
Um exemplo recente é o PL 1904/2024, apresentado por deputado do PL, que pretendia equiparar o aborto (após 22 semanas de gestação) ao homicídio. A proposta atropelou debates técnicos e éticos, evocando discurso moralista. Diversos setores avaliaram o projeto como um “teste político”, mais voltado à mobilização de base conservadora do que à construção legislativa eficiente.Movimento “Escola Sem Partido” e suas versões municipais e estaduais
Ao longo dos anos, parlamentares conservadores têm apresentado, nas câmaras municipais e assembleias legislativas, projetos inspirados no discurso “Escola Sem Partido” — textos que visam proibir “doutrinação ideológica” nas escolas ou limitar o que pode ser ensinado em sala de aula. Frequentemente, esses projetos não passam de iniciativas simbólicas, pouco efetivas do ponto de vista pedagógico ou jurídico, mas que servem para alimentar uma retórica de combate à “ideologia de esquerda”.
A deriva simbólica da direita: por que é um caso perdido
A direita parlamentar no Brasil convive com uma contradição crônica: ela exige discurso de moral, patriotismo e defesa familiar, mas raramente consegue cumprir o mínimo de produção legislativa relevante que beneficie coletivamente. Em vez de mobilizar para reformas estruturais — na saúde, na educação, na habitação ou na infraestrutura —, muitos de seus quadros investem em projetos de caráter simbólico, homenagens ou discursos provocativos, sempre em função de sua própria base social ou da “família Bolsonaro”.
Esse comportamento enfraquece ainda mais sua credibilidade institucional. Quando a esfera política concentra-se em homenagens ao cabelereiro de uma primeira-dama ou em leis que pouco ou nada transformam, a política se reduz a espetáculo, e o parlamento — a vitrine de vaidades partidárias. A direita brasileira, nesse cenário, parece atuar como força de propaganda mais do que de governo real.
Se em nível municipal isso se traduz em homenagens inusitadas, nos parlamentos estaduais e federais resulta em projetos com baixa efetividade, muitas vezes abortados ou meramente simbólicos.
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