Enquanto delegado é executado pelo PCC, Tarcísio cuida de Bolsonaro e secretário janta com empresários
A morte de Ruy Ferraz Fontes expôs a fragilidade da política de segurança pública no estado e a omissão do governador Tarcísio de Freitas
O assassinato do ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, Ruy Ferraz Fontes, expôs a fragilidade da política de segurança pública no estado e a omissão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Fontes, que chefiou a instituição entre 2019 e 2020 e foi um dos responsáveis pela prisão do líder do PCC, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, foi executado na noite de segunda-feira (15), em Praia Grande, litoral paulista, em uma emboscada atribuída à facção criminosa.
Delegado sem proteção
Duas semanas antes de ser morto, Fontes já havia denunciado à rádio CBN que vivia sem qualquer tipo de proteção oficial, mesmo após ser jurado de morte pela facção. “Eu tenho proteção de quem? Eu vivo sozinho aqui na Praia Grande, que é o meio deles. Hoje eu não tenho estrutura nenhuma”, afirmou. Apesar dos alertas, o ex-delegado circulava em um carro sem blindagem quando foi perseguido por criminosos armados, colidiu contra um ônibus e acabou executado a tiros de fuzil.
Governador ausente e empenhado em anistia
Enquanto a população paulista reagia com choque e medo ao assassinato de um dos mais emblemáticos combatentes do PCC, Tarcísio de Freitas direcionava seus esforços a outra frente: a defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Documentos revelam que advogados do ex-mandatário pediram ao Supremo Tribunal Federal (STF) a liberação de uma visita do governador a Bolsonaro em Brasília, já nesta terça-feira (16), em meio às articulações pela chamada “anistia”. A defesa justificou o pedido alegando “otimização da agenda do governador”. No entanto, a própria agenda oficial de Tarcísio indicava apenas “despachos internos” no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo. Aliados confirmaram que o governador planejava viajar a Brasília para pressionar o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), a colocar o tema em votação. O objetivo é claro: blindar Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, e neutralizar o debate sobre um eventual indulto ao ex-presidente durante a corrida eleitoral de 2026.
Secretário em jantar com empresários
No mesmo dia em que o crime repercutia nacionalmente, o secretário estadual de Segurança Pública, Guilherme Derrite, optou por manter sua presença em um jantar com empresários, na residência de Rafael Furlanetti, diretor da XP Investimentos. O encontro, que reuniu políticos e executivos, teve como pauta a PEC da Segurança Pública em tramitação no Congresso.
Segundo relatos, Derrite deixou a mesa algumas vezes para atender telefonemas, mas não compartilhou detalhes sobre o assassinato de Fontes com os presentes. Preferiu tratar da proposta legislativa e de temas gerais da pasta.
Nota protocolar
Mais de 12 horas depois da execução de Ruy Ferraz Fontes, o governador Tarcísio publicou apenas uma nota protocolar nas redes sociais, em que afirmou estar “trabalhando para identificar e prender os criminosos responsáveis”. A resposta discreta contrastou com manifestações anteriores do próprio governador sobre casos no exterior, como a morte do influenciador norte-americano Charlie Kirk, a quem dedicou uma mensagem emotiva dias antes.
Contradição exposta
O caso evidencia uma contradição: enquanto São Paulo volta a viver sob o temor da escalada do PCC, o governador e seu secretário de Segurança Pública adotam posturas burocráticas ou protocolares, priorizando articulações políticas e compromissos empresariais. O delegado que dedicou a vida a combater a facção criminosa acabou morto sem proteção, enquanto o chefe do Executivo paulista, principal aposta da direita para 2026, preferia negociar nos bastidores a liberdade de Bolsonaro.
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