E meu filho virou artista

Eu sei da existência das escolas para ensinar as artes, mas, carrego comigo uma convicção: é preciso a pessoa ter um dom mínimo para as artes. Na escola, vem o aperfeiçoamento.
Sonhei em ter um artista em Tarcísio Augusto.
Era um sonho misturado com medo. Medo de quê?
Medo de dirigir a vida do filho. Filho não é para realizar sonho de pais. Filho é para traçar seus próprios caminhos. Mesmo assim, atendendo a desejo dele, comprei uma sanfona para ele. Ele foi corajoso, enfrentou o complexo instrumento, mas logo deu o veredicto: “pra mim não vai dar”!!!
E fomos para a tradicionalidade da vida. Um curso profissionalizante de grau superior.
Tarcísio escolheu o Direito e mais uma vez foi enfático: “não quero concurso público, quero ser advogado!”
Hoje, com o título de mestre em Direito, está com seu escritório montado e trabalhando com direito público e eleitoral.
A sanfona não deu certo, mas como pai, cultivo um orgulho pelo apuradíssimo gosto musical de Tarcísio Augusto. Sua trilha sonora é de extremo bom gosto. Ele ouve o bom forró de Luiz Gonzaga, Flávio José e outros. É fã de nordestinos genuínos como Zeca Baleiro, Chico César e Os Nonatos. Canta os bons sambas de Cartola e Nelson Cavaquinho. Como morou em Minas, se escorrega até pelo sertanejo ouvindo e cantando Trio Parada Dura.
Enfim, orgulho! Mesmo que não tenha conseguido ser sanfoneiro, mas tem bom gosto musical.
Certeza de que sofrerá menos na vida: quem ouve a boa música é mais feliz.
Chegou 2020 e com ele a pandemia.
Nos isolamos todos. Aqui em casa estamos há 4 meses cumprindo o isolamento social.
E não é que nesse período, Tarcísio Augusto compôs uma letra de música belíssima, arrumou quem desse a melodia e voz, e cantasse a linda música!...
Além de tudo, está disponibilizando em plataformas digitais.
Agora já posso dizer e me orgulhar: meu filho é um artista!!!
O Outro Silêncio
Letra: Tarcísio Augusto
Melodia: Isabela Rodrigues
"O silêncio foi a primeira coisa que existiu",
Disse-lhe categoricamente um poeta.
O outro perguntou depois do que refletiu:
Essa assertiva está completa?
O silêncio é só o que inicia, afinal?
Ou essa é uma verdade apenas parcial?
Ora, o silêncio é antes e depois;
é o que se recolhe ao encontro de dois.
É o que se recolhe ao barulho de dois.
Império da inexistência do denominador comum,
o silêncio é o que é quando se é só um.
O silêncio é o que é quando se é só um.
Eis que chegamos neste ponto crucial:
Há silêncio após o infortúnio da nau.
Quando no amor já há espaço pro não,
quando tudo que existe é o não dito,
quando já se apagou o que estava escrito.
Quando a vitrine não mostra mais o que é bonito,
o silêncio é tempestade que provoca aflição,
porque o silêncio também é fim, evidencia a razão.
O silêncio é o que é quando se é só um,
o silêncio é o que é quando se é só um.
Subtração de dois, o silêncio é nenhum.
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