Entrevistas

Do Sion à uberização: Antônio José Medeiros aponta caminhos para o PT voltar às bases

O fundador do PT falou com exclusividade ao pensarpiaui sobre diversos temas


Reprodução Do Sion à uberização: Antônio José Medeiros aponta caminhos para o PT voltar às bases
Antônio José Medeiros

Em entrevista ao pensarpiaui o sociólogo e professor Antônio José Medeiros revisita a fundação do PT e conecta passado e presente da esquerda brasileira. Ele recorda a presença piauiense no ato de criação do partido, no Colégio Sion, em 1980, citando o militante Gaudêncio Leal e o início da organização no estado — de reuniões no Parque Piauí à formação de uma comissão provisória chancelada nacionalmente. 

Medeiros descreve a transformação do mundo do trabalho desde o “novo sindicalismo” — metalúrgicos, petroleiros e bancários  — até a automação e a “uberização”. O bancário símbolo de status virou cliente de si mesmo no autoatendimento; novas ocupações exigem manuseio de ferramentas digitais e, em alguns casos, programação. Ele alerta para a “bomba-relógio” previdenciária dos trabalhadores de aplicativo e defende ouvir as demandas reais dessa base (remuneração, condições e previdência), debatendo jornadas e limites semanais.

Para ele, a esquerda precisa superar preconceitos com o termo “empreendedorismo”, entendendo-o como capacidade de iniciativa também no trabalho imaterial e autônomo. O avanço do home office e do trabalho remoto reduz a vida coletiva do “chão de fábrica”, dificultando o associativismo, mas não cria necessariamente mentalidade patronal; há novos “colarinho branco” que cabem no projeto de um partido de trabalhadores. O desafio do PT, diz, é “saber chegar” a essa diversidade, combinando escuta com formulação de políticas.

No plano partidário, Medeiros sustenta que “voltar às bases” hoje passa por governar de modo participativo. Cita o orçamento participativo e propõe usar metas objetivas nas prefeituras, especialmente em educação (tempo integral, Ideb, EJA, alfabetização), para que a entrega de políticas públicas fortaleça vínculos sociais e eleitorais. Reconhece, porém, vícios antigos: a desproporcional valorização de aliados em detrimento de quadros petistas e a lógica de prefeitos atrelados a parlamentares, não ao partido — um problema de articulação que precisa ser enfrentado.

No debate internacional, Medeiros vê as medidas de Trump menos como protecionismo clássico e mais como tentativa de recompor a capacidade estatal e industrial dos EUA diante da China, numa multipolaridade estável sem confronto militar direto. Para o Brasil, Medeiros defende um projeto nacional que envolva atores estratégicos — inclusive Forças Armadas com formação intelectual renovada. 

Por fim, ao avaliar o Piauí, ele reconhece avanços sociais nos governos Wellington Dias e o início da agenda de atração de investimentos no governo Rafael Fonteles, mas aponta entraves estruturais: baixa participação do estado no PIB nacional, cadeia da soja com pouca retenção local de renda, gargalos de transmissão elétrica e desenho tributário. Sobre 2026, classifica a montagem da chapa com MDB/PSD como aritmética política; manifesta ceticismo quanto à adesão de parte do voto petista a Júlio César e sinaliza simpatia por um vice de gerações mais jovens do PT embora veja em alguns veteranos do Partido condições de serem vice de Rafael Fonteles. Aposentado, Medeiros conclui que segue “ativo pela palavra”, apostando no diálogo intergeracional como condição para renovar o partido e seu vínculo com a sociedade.

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