Política

Devedores contumazes: Tarcísio que vinha em silêncio estratégico é transformado em herói pela Globo

Emissora deu destaque à fala do governador sem levantar uma só crítica à sua atuação


Reprodução Devedores contumazes: Tarcísio que vinha em silêncio estratégico é transformado em herói pela Globo
Tarcísio de Freitas - o herói, segundo o Jornal Nacional

Tarcísio de Freitas reapareceu na cobertura do Jornal Nacional como uma espécie de herói da Operação Poço de Lobato, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) nesta quinta-feira (27). A megaoperação, de caráter interestadual, mira o Grupo Fit (ex-Refit), empresa do setor de combustíveis considerada responsável por um rombo estimado em R$ 26 bilhões aos cofres públicos. No total, 190 empresas e pessoas ligadas ao conglomerado são investigadas por suspeita de integrar uma organização criminosa voltada para fraudes tributárias, crimes contra a ordem econômica, lavagem de dinheiro e outras infrações.

O protagonismo do governador paulista na cobertura da TV Globo, no entanto, contrasta com sua própria trajetória política. O mesmo Tarcísio que conduz um processo acelerado de privatizações no Estado, defende operações policiais letais e se manteve em silêncio durante a Operação Carbono Oculto, agora surge como paladino da moralidade fiscal — com evidente alinhamento ao discurso da emissora, que o apresenta como possível alternativa a Lula em 2026.

Durante coletiva na sede do Ministério Público paulista, Tarcísio defendeu a aprovação do projeto de lei que endurece a cobrança sobre os chamados “devedores contumazes”, empresas reincidentes na sonegação de impostos. O texto foi aprovado por unanimidade no Senado e aguarda avanço na Câmara. Ele afirmou ser “fundamental” articular a aprovação da proposta e disse que operações como a Poço de Lobato demonstram a urgência de novos instrumentos legais.

Ao fim da entrevista, microfones captaram o governador dizendo ao secretário da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, que irá “para cima” do tema no Congresso. Barreirinhas respondeu pedindo apoio direto do governador. “Vamos para cima, tem que aprovar esse negócio”, replicou Tarcísio.

Apadrinhado político de Jair Bolsonaro e um dos nomes mais cotados da direita para 2026, o governador mantém postura crítica ao presidente Lula em atos públicos. A operação, contudo, o colocou momentaneamente no mesmo palanque discursivo do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Mais cedo, em Brasília, Haddad também reiterou que a aprovação do projeto é essencial para separar “o joio do trigo” e proteger os contribuintes corretos.

Apesar do consenso no Senado — foram 71 votos a zero — o projeto seguia travado na Câmara até esta manhã, sem relator designado pelo presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), correligionário de Tarcísio. Horas depois, Motta anunciou o deputado Antonio Carlos Rodrigues (PL-SP) como relator.

Entidades do setor reforçaram o pedido. O Instituto Combustível Legal (ICL) classificou a aprovação como urgente. Para o presidente do instituto, Emerson Kapaz, a Poço de Lobato revela um modelo de negócio baseado na fraude, com alta sofisticação e prejuízo bilionário. Segundo ele, enfrentar o devedor contumaz é vital para proteger a concorrência leal e impedir o avanço de estruturas criminosas no mercado de combustíveis e em outros setores da economia formal.

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