Saúde

Da luta pela vida à aprovação em três universidades: a história que transformou dor em esperança

Com anemia aplástica Ítalo Cantanhede precisou interromper os estudos e enfrentar 40 dias de internação em UTI, além de infecções decorrentes do quadro clínico


Reprodução Da luta pela vida à aprovação em três universidades: a história que transformou dor em esperança
Ítalo Cantanhede

O paraense Ítalo Cantanhede, 17 anos, aluno do Colégio Militar de Belém, decidiu ainda no ensino fundamental que seguiria a carreira médica. O projeto de vida ganhou contornos mais definidos em 2025, quando ele próprio se tornou paciente ao ser diagnosticado com anemia aplásica medular severa, doença rara que atinge cerca de 2,4 pessoas a cada 1 milhão no Brasil e compromete a produção de células sanguíneas pela medula óssea.

O diagnóstico foi comunicado à família em 23 de maio de 2025, quando Ítalo, então com 16 anos, concluía o ensino médio e se preparava para o Enem. O impacto foi imediato: ele precisou interromper a rotina de estudos e enfrentar 40 dias de internação em UTI, além de infecções decorrentes do quadro clínico. Atleta de vôlei, percebeu os primeiros sinais na queda brusca de rendimento, acompanhada de cansaço extremo e taquicardia.

Após avaliações em Belém, médicos indicaram o transplante de medula óssea como única alternativa terapêutica. Exames de compatibilidade revelaram que a irmã, Ísis, de 6 anos, era 100% compatível. A família decidiu buscar tratamento na BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, centro de referência que já realizou mais de 1.500 transplantes desde 2016.

Antes do procedimento, Ítalo passou por quimioterapia de condicionamento, etapa destinada a eliminar as células doentes. Mesmo durante o tratamento, manteve os estudos de forma irregular, conciliando transfusões e períodos de indisposição com a preparação para o Enem. Com autorização judicial, realizou a prova em dezembro de 2025 no próprio quarto do hospital, acompanhado por profissionais de saúde e aplicadores do Inep.

O esforço resultou na aprovação em três instituições públicas: UFRJ, UFPA e Uepa, onde iniciará medicina no segundo semestre de 2026. O transplante foi considerado bem-sucedido pelo onco-hematologista pediátrico Victor Gottardello Zecchin. Ítalo segue internado para tratar infecção por citomegalovírus, complicação prevista no pós-transplante, mas está curado da doença de base.

A trajetória mobilizou uma ampla rede de solidariedade. Diante do alto custo da UTI aérea necessária para o deslocamento até São Paulo — estimado em R$ 200 mil —, familiares organizaram uma campanha online que arrecadou R$ 292 mil em apenas uma semana, com mais de 4 mil doações. A mobilização, iniciada no Colégio Militar de Belém, ganhou adesão em todo o país.

Hoje, com o transplante realizado e a aprovação conquistada, Ítalo projeta o retorno para casa como símbolo de vitória pessoal e coletiva — resultado da medicina, da persistência e da solidariedade.

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