Comunicação

Corrupção! Há corrupção no Sudeste ou só no Nordeste ?

Quando a corrupção é retratada com lente seletiva


Reprodução Corrupção!  Há corrupção no Sudeste ou só no Nordeste ?
Sara Goes e os processos de corrupção no NE e no SE

Texto baseado em reflexão da comunicadora nordestina Sara Góes

No fim de 2024, a Polícia Federal concluiu que o deputado federal Júnior Mano (PSB-CE) desempenhava papel central em um esquema de desvio de emendas parlamentares voltado à compra de votos em dezenas de municípios cearenses. O nome do parlamentar cearense, no entanto, não apareceu sozinho: também foram alvos de denúncias semelhantes os deputados Hugo Motta (Republicanos-PB), da Paraíba, e, Arthur Lira (PP-AL), de Alagoas. A recorrência de escândalos envolvendo figuras políticas nordestinas reacendeu uma pergunta incômoda, frequentemente feita de forma enviesada: por que os investigados são, em sua maioria, do Nordeste? Não há corrupção no Sudeste?

A comunicadora Sara Góes propõe que a resposta exige um olhar mais profundo, dividido em três camadas. A primeira diz respeito à dependência estrutural. Parlamentares do Norte e Nordeste, em geral, têm menor acesso a verbas partidárias robustas, ministérios e grandes financiadores. Em regiões onde a precariedade dos serviços públicos é aguda, emendas parlamentares funcionam como moeda de visibilidade política — transformando-se em ambulâncias, poços ou quadras esportivas. Embora muitas dessas ações estejam legalmente amparadas, tornam-se moralmente ambíguas quando utilizadas como ferramenta de barganha política. É justamente nessa zona cinzenta que se abrem brechas para distorções e desvios.

A segunda camada está na sofisticação da corrupção no Sudeste. Nessa região, os esquemas não costumam se apoiar em emendas pontuais, mas sim em redes complexas envolvendo privatizações, obras públicas, contratos bilionários, grilagens urbanas e organizações sociais. Trata-se da corrupção de “gravata e terno italiano” — muitas vezes blindada por grandes escritórios de advocacia, relações com o Judiciário e proteção institucional. Diferentemente do que ocorre no Nordeste, essas operações raramente ganham repercussão com sirenes da Polícia Federal e entrevistas coletivas.

A terceira camada é a forma como a mídia cobre os escândalos. Com base em São Paulo, os principais veículos de comunicação nacionais tendem a tratar com estardalhaço os casos que envolvem políticos nordestinos, frequentemente com tom moralizante e regionalista. Um escândalo no Ceará ganha manchete com foto e adjetivos; já um caso semelhante em São Paulo, quando noticiado, costuma receber tratamento mais discreto. Essa cobertura desigual escancara um preconceito estrutural que atravessa tanto a mídia tradicional quanto a independente, ambas influenciadas pela lógica de centro-sul que criminaliza a periferia política do país.

Sara Góes observa que essa construção simbólica reforça estereótipos regionais: o Sudeste é o centro racional da política, enquanto o Nordeste é associado ao “coronelismo” e à corrupção como traço cultural. Os grandes grupos econômicos e políticos do Sudeste, como os Setúbal, Silva Prado ou Macris, nunca são chamados de coronéis, apesar de concentrarem poder e influência nos bastidores do Estado e do mercado. O verdadeiro patrimonialismo, sustenta Góes, está nos conselhos de empresas privatizadas, nos lobbies empresariais e nas articulações da Faria Lima.

Como destaca o pesquisador Israel França, o que se apresenta como mais um caso de corrupção regional, na verdade, expõe uma engrenagem nacional de escândalos seletivos. Nela, a periferia política é sacrificada para manter incólume o centro de poder. Um jogo antigo, onde quem apanha mais não é necessariamente quem mais deve.

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