“Consórcio da Bala": Demagogos governadores de direita transformam Segurança em plataforma de guerra
Os governadores fazem um alinhamento político-ideológico para sustentar uma agenda de endurecimento penal, operações bélicas e expansão da doutrina da “guerra interna” contra populações pobres, com forte interesses do EUA nesta política
Dois dias após a megaoperação que resultou em 121 mortos no Complexo do Alemão e na Penha — a maior chacina policial já registrada no Rio sob uma única operação — o governador Cláudio Castro (PL) reuniu-se com outros gestores estaduais alinhados à direita para anunciar a criação de um chamado “consórcio de paz”. O nome contrasta com a prática: a reunião ocorreu em clima de exaltação da ação policial que, segundo entidades de direitos humanos, é marcada por execuções sumárias, desaparecimentos e violação de garantias constitucionais.
A proposta apresentada pelo grupo — composto por Romeu Zema (Novo-MG), Ronaldo Caiado (União-GO), Eduardo Riedel (MS), Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP, por vídeo) e Celina Leão (PP-DF) — é integrar políticas de segurança e inteligência. Na prática, trata-se de um alinhamento político-ideológico para sustentar uma agenda de endurecimento penal, operações bélicas e expansão da doutrina da “guerra interna” contra populações pobres, com forte interesses do EUA nesta política.
“Temos uma grande oportunidade de mudar a história da segurança pública com coragem”, declarou Castro. A “coragem” citada, porém, não inclui reformas estruturais, políticas sociais ou enfrentamento às milícias — atores que, historicamente, mantêm vínculos diretos com grupos políticos do próprio PL no Rio.
Exaltação da operação e negação de vítimas civis
Em coro, os governadores elogiaram a operação que deixou mais de uma centena de mortos. Romeu Zema classificou a ação como “a mais bem-sucedida do Brasil” e afirmou não ter havido vítimas inocentes — uma declaração que ignora testemunhos de moradores, vídeos, laudos preliminares e relatórios de organizações de direitos humanos que apontam execuções, corpos removidos, casas invadidas e helicópteros atirando sobre áreas densamente povoadas.
A versão dos governadores segue o roteiro já conhecido: legitimar a letalidade policial como “necessária” e apresentar o território como inimigo interno.
Consórcio como fachada para uma política de guerra
Ronaldo Caiado argumentou que “quando o crime ataca um de nós, ataca todos”. A frase sugere cooperação institucional, mas o consórcio tende a funcionar como plataforma política unificada para:
A defesa da militarização da vida urbana;
O enfraquecimento de protocolos de controle policial estabelecidos pelo STF;
A construção de uma narrativa que associa pobreza a terrorismo;
A pressão para flexibilizar regras de operação em áreas periféricas.
A vice-governadora do DF, Celina Leão, afirmou que o consórcio “mostra compromisso com o cidadão”. Entretanto, a maior parte da população afetada pelas ações desses governos — moradores de favelas e periferias — não foi convidada a essa mesa.
Um “laboratório nacional” às custas de vidas pobres
Ao citar a ADPF das Favelas como justificativa, Castro tenta ressignificar a decisão — originalmente desenhada para reduzir mortes — como carta branca para operações de retomada territorial de caráter militar. O Rio, mais uma vez, é tratado como laboratório de experimentação repressiva, onde vidas negras e pobres são descartáveis.
O anúncio do “consórcio de paz” não aponta para políticas de prevenção, redução de desigualdade, fortalecimento comunitário ou combate à atuação das milícias. Trata-se, antes, de um pacto entre governadores de direita para sustentar um projeto de segurança pública baseado em confronto permanente, alta letalidade e consolidação de poder político sobre territórios vulneráveis. Uma política de guerra travestida de cooperação institucional.
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