Congresso Nacional: mais poderes, menos responsabilidade — e o alerta para 2026
Desde 1988, a qualidade do Congresso Nacional não melhora — só piora e na medida que amplia seus próprios poderes, reduz seus ônus e avança sobre prerrogativas das demais instituições da República
A cada ciclo eleitoral, o tema retorna como um lamento quase ritual: “O Congresso é fraco, medíocre, corporativista.” Mas já alertava o ex-deputado Ulysses Guimarães, ícone da Constituição de 1988, diante das queixas sobre a “baixa qualidade” do Parlamento: “É porque você ainda não viu o próximo.”
Quase quatro décadas depois, a frase deixou de soar como advertência e se transformou em diagnóstico histórico. Desde 1988, a qualidade do Congresso Nacional não melhora — piora. E piora justamente à medida que o Parlamento amplia seus próprios poderes, reduz seus ônus e avança sobre prerrogativas das demais instituições da República.
Um histórico de expansão de poder sem contrapartida
Desde o período pós-impeachment de Dilma Rousseff e, sobretudo, após a ascensão de Michel Temer e Bolsonaro, o Congresso ocupou espaços antes impensáveis. Sob um presidente fraco e dependente de base política de ocasião, a Câmara e o Senado se apropriaram de fatias crescentes do Estado brasileiro. Foi nesse ambiente que nasceu o orçamento secreto, rebatizado depois como “emendas de relator” — um laboratório perfeito para a transferência do orçamento da União para as mãos de caciques parlamentares.
O Congresso, então, passou a operar com um poder que nenhum Poder Legislativo em regimes presidencialistas detém no mundo democrático: decidir diretamente bilhões em recursos públicos sem transparência, sem planejamento nacional e sem responsabilidade política diante do eleitorado.
Mais poderes, menos freios
Nos últimos anos, o Legislativo avançou sobre competências que constitucionalmente pertencem a outros Poderes:
Tentativas de limitar decisões do Supremo Tribunal Federal;
Pressão permanente sobre o Executivo para controlar ministérios, estatais e direções estratégicas;
A lógica das emendas como moeda de governabilidade — ou chantagem.
A ampliação de poder não trouxe melhoria da representação. Pelo contrário: quanto mais força institucional o Congresso acumulou, menor se tornou a qualidade do debate, da produção legislativa e da responsabilidade pública.
As trapalhadas recentes: Hugo Motta e Davi Alcolumbre como símbolo do problema
A dupla Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) tornou-se a expressão contemporânea dessa distorção.
1. A “PEC da Bandigadem”
Na Câmara, Hugo Motta esteve entre os articuladores da tentativa de aprovar a chamada PEC da Bandidagem, que buscava blindar parlamentares de operações policiais e decisões da Justiça. Uma proposta que afrontava diretamente o combate ao crime organizado e à corrupção — e que só não avançou por reação pública imediata.
2. A chantagem aberta no Senado
No Senado, Alcolumbre opera de maneira semelhante. Sua recusa explícita em aceitar a indicação constitucional de Jorge Messias ao STF é mais que uma afronta a Lula: é uma afronta à própria Constituição, que concede exclusivamente ao presidente da República a prerrogativa de indicar ministros do Supremo. Alcolumbre, à frente do chamado “Congresso da Mamata”, tenta transformar o Senado num balcão de chantagem institucional.
3. Controle político do orçamento
Ambos atuam para manter no Legislativo o controle obscuro sobre bilhões em emendas — um sistema que retira planejamento do Estado e entrega poder absoluto a pequenos grupos parlamentares.
4. Outras cenas de degradação
Manobras regimentais para impedir votações de interesse público.
A pressão por cargos e verbas como condição para funcionamento da máquina pública.
A proteção explícita a colegas envolvidos em escândalos criminais.
O boicote a projetos estruturantes, como o enquadramento de devedores contumazes, travado por Hugo Motta e Ciro Nogueira para proteger grandes sonegadores.
“Congresso inimigo do povo”: o sentimento das redes
Diante desse acúmulo de distorções, multiplicam-se nas redes campanhas com o lema: “CONGRESSO INIMIGO DO POVO.”
Embora o slogan seja politicamente duro, ele traduz um sentimento crescente de frustração. A sociedade percebe que o Congresso se tornou o Poder mais forte da República — mas, paradoxalmente, o menos responsável, o menos transparente e o menos comprometido com o interesse coletivo.
A advertência para 2026: o problema não é o Congresso — é quem o elege
Nada disso é irreversível. Mas é preciso reconhecer uma verdade incômoda: o Congresso não surge por geração espontânea. Ele é eleito. Ele é escolhido. Ele é produzido pelo voto popular.
2026 será um ponto de inflexão. Se a sociedade continuar elegendo figuras medíocres, inquisitivas, oportunistas ou fisiológicas, o próximo Congresso — como diria Ulysses — será pior que o atual. E um Parlamento pior, com mais poderes, pode ser uma ameaça real ao equilíbrio institucional do país.
O Parlamento que o Brasil precisa, e o que o Brasil tem
O Brasil precisa de um Congresso que:
Fiscalize sem chantagear;
Legisle sem negociar a Constituição;
Administre recursos públicos com responsabilidade nacional;
Respeite os limites de cada Poder;
Não trate cargos, verbas ou o STF como fichas de pôquer.
Mas hoje, o Congresso é um Poder que cresce para dentro, concentra poder, cria privilégios, protege seus próprios interesses — e se afasta da população que deveria representar.
A tarefa para 2026 é clara: eleger representantes com qualidade, coragem, espírito público e compromisso com o país. Do contrário, o risco é que a frase de Ulysses continue ecoando — não como advertência, mas como maldição: “É porque você ainda não viu o próximo.”
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