Política

Coerência para os outros: Alessandro Vieira cobra Moraes enquanto acumula contradições

O senador Alessandro Vieira construiu sua imagem pública com base no discurso ético, mas sua trajetória recente é marcada por mudanças partidárias e alianças que contradizem essa narrativa


Reprodução Coerência para os outros: Alessandro Vieira cobra Moraes enquanto acumula contradições
Alexandre de Moraes e Alessandro Vieira

O senador Alessandro Vieira construiu sua imagem pública com base no discurso ético, mas sua trajetória recente é marcada por mudanças partidárias e alianças que contradizem essa narrativa. A defesa de uma CPI contra Alexandre de Moraes expõe um zelo seletivo, inserido mais na disputa política do que em compromisso institucional. A aproximação com André Moura, antigo alvo de suas críticas, reforça a percepção de incoerência entre discurso e prática.

O QUE ACONTECEU

O senador Alessandro Vieira construiu sua imagem pública a partir de um discurso rígido de moralidade, independência e combate à corrupção. No entanto, uma leitura atenta de sua trajetória política recente revela um conjunto de contradições que fragiliza o personagem do “paladino da justiça” que ele insiste em sustentar no debate público.

Essa contradição ficou ainda mais exposta quando Vieira passou a defender a criação de uma CPI para investigar uma suposta relação entre o ministro Alexandre de Moraes e o Banco Master. Segundo o senador, a comissão buscaria esclarecer se houve um contrato de R$ 3,6 milhões firmado com o escritório de advocacia da esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes, com contraprestação mínima, além de eventual interferência do magistrado em benefício de clientes da banca familiar. Vieira afirma que não se trata de condenação prévia, mas de “colocar luz nos fatos”. Ainda assim, o gesto se insere num ambiente político de pressão recorrente sobre o Supremo Tribunal Federal e levanta dúvidas sobre a seletividade do zelo ético do parlamentar.

Natural de Passo Fundo (RS), mas radicado desde a infância em Aracaju (SE), Alessandro Vieira formou-se em Direito e atuou por 17 anos como delegado de polícia. Em 2016, foi nomeado pelo então governador Jackson Barreto (MDB) para comandar a Polícia Civil de Sergipe. A passagem foi curta: após iniciar uma série de prisões, acabou exonerado em abril de 2017. O episódio é frequentemente apresentado por ele como prova de independência, mas também marca o início de sua rápida transição para a política institucional.

Eleito senador em 2018 pela Rede Sustentabilidade, Vieira deixou o partido pouco depois, alegando discordância com a posição contrária da legenda ao então candidato Jair Bolsonaro. Migrou para o PPS, atual Cidadania, depois para o PSDB e, em 2022, disputou o governo de Sergipe, ficando em terceiro lugar, com apenas 10,88% dos votos. Em 2023, filiou-se ao MDB, legenda que simbolizava, em seu discurso de campanha, tudo aquilo que dizia combater como “velha política”. O vaivém partidário enfraquece o argumento de coerência que ele cobra de adversários e instituições.

A retórica de independência — repetida tanto nos anos do bolsonarismo quanto no atual governo Lula — soa cada vez mais como cálculo político do que como convicção republicana. A imagem de senador “nem de um lado, nem de outro” contrasta com decisões práticas moldadas por conveniência eleitoral.

Esse descompasso torna-se ainda mais evidente na reaproximação com André Moura, que deverá ser candidato por Sergipe na mesma chapa de Alessandro Vieira. Moura é atualmente secretário do governo de Cláudio Castro, no Rio de Janeiro, e seu nome aparece com frequência associado a controvérsias e a episódios classificados como, no mínimo, politicamente suspeitos. A aliança chama atenção porque, até pouco tempo atrás, Vieira dizia não fazer “acordos com corruptos” e afirmava que Moura só não havia sido preso porque “confessou os crimes que cometeu”.

Agora aliados, os dois alimentam um questionamento que corre solto nas ruas e bastidores de Sergipe: quem mudou, André ou Alessandro? O próprio Moura já acusou o senador de fazer hoje exatamente aquilo que sempre condenou — barganha política em troca de apoio eleitoral.

Ao cobrar coerência do Supremo e de Alexandre de Moraes, Alessandro Vieira parece relutar em aplicar o mesmo rigor à própria trajetória. Entre CPIs seletivas, mudanças sucessivas de partido e alianças antes impensáveis, o senador corre o risco de ver esvaziado o principal ativo que o projetou nacionalmente: o discurso ético como valor permanente, e não como instrumento circunstancial de disputa política.

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